terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

Resenha: Gestão da emoção (AUGUSTO CURY)

Gestão da emoção: Gestão do pensamento

Augusto estabelece esse fato logo no início da obra (p. 08), onde ele diz: “a gestão da emoção depende da gestão do pensamento”. Mais adiante, ele reafirma e expande essa ideia dizendo (p. 119): “A unidade básica da mente humana é o pensamento, Os pensamentos são os alicerces e os tijolos de todos os tipos de conhecimento: dos lúcidos aos estúpidos, das ideias inteligentes às perturbadoras, das ciências humanas às lógicas. Os pensamentos também são os trilhos das emoções. Pensa-se no futuro e sofre-se por antecipação. Rumina-se a discriminação e experimentam-se angústias. Alegria e tristeza, euforia e humor depressivo, prazer e angústia, aplausos e vaias, autoestima e autopunição, amor e ódio, enfim, o universo das emoções depende dos trilhos dos pensamentos”. (Grifo nosso).

O autor sabe que gerir o pensamento é exercer a capacidade crítica de pensar e qual o resultado dela. Ele diz (p. 33): “(...) Toda crítica é maculada pelo olhar do crítico (quem sou, como estou e onde estou)”. 

Para o autor, até mesmo a felicidade tem de ser inteligente (p. 58), enfatizando outra vez a importância do pensamento. Para o autor, qualquer pensamento sobre a morte é uma homenagem à vida, pois só a vida pensa (p. 74).

Aqui vale uma ressalva importantíssima que Cury faz entre inteligentes e sábios. Para ele, o inteligente tem consciência de quanto sabe; o sábio tem consciência do quanto não sabe (p. 136). Um se informa muito, outro observa muito; um reage pelo fenômeno bateu-levou, outro reage pelo fenômeno bateu-pensou; um ama a arte de responder, outro, a arte de perguntar; um gosta de ser o centro das atenções, outro, gosta de ouvir e só aparecer quando necessário (p. 137). 

Uma das informações mais surpreendentes ao resenhar essa obra é que, para o autor, pensar sem gestão da emoção é ruim. Nas suas palavras (p. 180): “Devemos ter plena consciência de que pensar é bom, mas pensar sem gestão é uma bomba contra a saúde psíquica”. 

COMO GERIR OS PENSAMENTOS (DCD)

Valendo-se do método socrático, o autor instiga-nos a questionar.  Ele diz (p. 53): “Analisando a postura intelectual de Sócrates, entenderemos que, para ele, um pensador questiona, enquanto um servo obedece ordens; um pensador explora seu mundo, enquanto um espectador espera a morte chegar; um pensador se deleita em produzir conhecimento, enquanto um repetidor de dados consome informações passivamente sem digeri-las”. (Grifo nosso) 

Ele prossegue em seu argumento dizendo (p. 53): “Hoje sabemos que quem pergunta pouco chega aos lugares aos quais todo mundo chega. Quem pergunta muito se perturba muito, se perde em seus caminhos, mas tem a possibilidade de chegar aonde ninguém chegou”. 

A arte de questionar abre o leque para outras possibilidades. Nas palavras do autor (p. 108): “Quem quer pensar em outras possibilidades deve ter intimidade com o universo das indagações”. Em quais áreas? Cury responde (p. 144): “Através da intimidade com a arte da dúvida, bombardeando-nos de perguntas e questionamentos sobre quem somos, nossos papéis sociais, nossas atitudes como líderes, nossos níveis de agilidade, nossa capacidade de reciclar, a qualidade de nossos produtos a competência dos processos, etc.”. (Grifo nosso)

O autor apresenta a técnica DCD com esse fim (Duvidar, Criticar, Determinar) [p. 160, 180]. A prática DCD é para ser aplicada aos nossos pensamentos (p. 119). Coisa que nenhuma faculdade ou empresa ensina-nos fazer.  Isso possibilitará a chamada mesa-redonda do Eu; onde conversaremos com nossas fobias, limitações e descobriremos se eles têm procedência ou não. Isso abrirá o leque para enxergarmos as coisas por outros ângulos possíveis (p. 143).  Para mim, a maior sacada de Cury, foi ensinar a questionar o próprio pensamento. Questionar nossos questionamentos (p. 119).

Administrando pensamentos: Gerenciando batalhas

Ao longo da obra, Augusto repete a frase: comprar o que não lhe pertence. Mas o faz em tom depreciativo, instigando-nos a não fazê-lo.  Ele diz (p. 161): “A primeira coisa é aprender a não comprar aquilo que não nos pertence. Frequentemente, nossos colaboradores, filhos, cônjuge, amigos nos colocam num pequeno círculo de fogo, envolvendo-nos em atritos, críticas, problemas que nada tem a ver conosco, e acabamos “consumidos” por eles com muita facilidade. Nossa emoção não tem filtro”. O autor, fazendo uma analogia com a pele humana diz-nos que devemos desenvolver pele emocional. O maior órgão do corpo humano que serve para protege-lo (p. 71). 

Isso trará a experiência da felicidade. Para Mark Manson, felicidade é resolução de problemas. Para Cury, ser feliz é não comprar o que não lhe pertence como atritos que não criou, intrigas que não fomentou (p.72).  Esses conceitos não são excludentes, mas complementares. 

Quando estamos gerenciando nossos pensamentos e escolhendo nossas batalhas ao não comprarmos o que não nos pertence, estamos inevitavelmente fazendo escolhas; e, para Cury, toda escolha implica perda (p. 90).  Para ele, não podemos alcançar o essencial se não estivermos dispostos a perder o trivial (p. 90 e 193).  Adoecemos emocionalmente por acolhermos trivialidades. A arte socrática será útil por questionarmos nossos pensamentos. Pois como Pascal disse: “Esforcemo-nos por pensar bem, eis o princípio da moral”. 

sábado, 3 de fevereiro de 2018

Um convite à reflexão: Resenha de podres de mimados – Theodore Dalrymple

Um convite à reflexão: Resenha de podres de mimados – Theodore Dalrymple

O livro tem seis capítulos. Trabalha uma crítica pertinente ao sentimentalismo. Afinal de contas, o que é “Sentimentalismo”? Dalrymple, valendo de uma expressão de Myron Magnet, diz que sentimentalismo é a expressão da emoção sem julgamento. Talvez ele seja pior do que isso: é a expressão da emoção sem um reconhecimento de que o julgamento deveria fazer parte de como devemos reagir ao que vemos e ouvimos (pg. 87). A pergunta que se faz a essa altura é: “Então, sentimentalismo é contra qualquer expressão de emoção”? A resposta que Dalrymple é que não. Ele escreve: “A questão não é se deve haver emoções, mas como, quando e em que grau elas devem ser expressadas, e que papel elas devem desempenhar na vida humana” (p. 78). 

O livro aponta que o sentimentalismo é a causa de muitos males que assediam a sociedade hoje. Uma das maiores influências nesse caso é Jean Jacques Rosseau com o seu romantismo. Segundo Pondé, o Romantismo é um movimento europeu que nasce no final do século XVIII e segue até finais do XIX com grande impacto na literatura, na filosofia, na política e na psicologia. Muitos especialistas usam a expressão ‘constante romântica’ para os ‘sintomas’ românticos até hoje. O romantismo seria uma ‘constante’ porque até hoje as causas históricas de seu surgimento permanecem ativas e, talvez, ainda mais ativas do que sua origem” (p. 08).

Vale lembrar, contudo, que originalmente (nos idos do sec. XVIII) o termo ‘sentimental’ tinha conotações positivas e que identificariam uma pessoa sensível e compassiva (p. 75). E, portanto, não é contra a expressão dos sentimentos e nem as emoções que Dalrymple faz sua crítica.   O que Dalrymple critica é a ação de ventilar emoção em público (p. 101). Ele critica a visibilidade desnecessária que as emoções adquiriram atualmente (p. 121). 

O romantismo e o sentimentalismo produziram muitos efeitos danosos que persistem atualmente e, ao longo dos capítulos, Dalrymple vai listando alguns deles. O primeiro deles é a concessão de todo desejo (pp 43-45). Há uma frase pertinente de Dalrymple nesse sentido: 

Muitas vezes, os pais, que se consideram a si mesmos bons pais, procuravam-me para perguntar por que seu filho ou sua filha tinha ficado tão problemático: tão temperamental, agressivo, violento e criminoso. Eles achavam aquilo de difícil entender porque, como diziam: ‘nós lhes demos tudo.’ Quando eu lhes perguntava o que eles queriam dizer com ‘tudo’, eles respondiam. Tirando uma ou outra posse material, ‘os melhores tênis, um iPod, um aparelho de CD’ (p. 43-44). Então ele prossegue narrando uma história de uma menina que deu birra por causa de um pé de galinha na janta e, que por isso, os pais queriam processar o supermercado que vendeu o produto (pp 56-58).

O segundo deles é a expressão irrefletida das emoções (p. 72). Há uma frase pertinente nesse caso:

O efeito das estatísticas aparentemente secas na primeira página do jornal (que mencionava índices sobre encarcerados na Grã-Bretanha) depende, portanto, da suspensão voluntária do pensamento, da reflexão, do questionamento, e da racionalidade em prol de uma resposta imediatamente emocional – e isso apesar do fato de que a maioria dos leitores do jornal viria do segmento da sociedade com maior nível de formação. O sentimentalismo não se limita nem a uma situação nem a uma classe social” (p. 72 grifos nossos). 

O terceiro deles é o exibicionismo (p. 75). Nas palavras de Dalrymple:

"A definição acima [do termo sentimental] não menciona uma importante característica do tipo de sentimentalismo para o qual desejo chamar atenção – seu caráter público. Não basta mais derramar uma lágrima em particular, longe da vista alheia, pela morte da pequena Nell [uma garotinha desaparecida dos pais na Grã-Bretanha]; é necessário fazê-lo, ou seu equivalente moderno, à plena visão do público”. Segundo Dalrymple, emoções são como uma teoria hidráulica: A emoção cresce com a expressão (p.79-80). O sentimentalismo público, o qual Darlymple combate, usurpa o significado do velho ditado: Vox Populi, Vox Dei [A voz do povo é a voz de Deus] (p. 82);  Isso significa que todo acontecimento tem que ter uma grande comoção pública, se não o tiver, a pessoa que absteve-se de comover-se publicamente não é sentimental, e portanto, não é digna de credibilidade.  Só que esse velho ditado é questionado quando se defende, por exemplo, uma tradição antiga (p. 121). Como salientamos anteriormente, Dalrymple critica a emoção ventilada em público como sendo algo sempre benéfico (p. 101). As emoções são como moedas podendo ser infladas e depreciadas, e nesse caso, ‘o que é ruim afasta o bom’ (p. 120).

Dalrymple prossegue criticando outros efeitos danosos, os quais omitiremos, para dar ao leitor o ensejo de ler essa magnânima obra. Um insight maravilhoso que Dalrymple traz é que o sentimentalismo público e nocivo se apropria do sofrimento alheio para ampliar a escala e a importância do sofrimento próprio. Nas palavras do próprio autor, a desonestidade emocional não conhece fronteiras (p. 136).  Então ele demostra essa verdade através de oito exemplos: Sylvia Plath, Binjamin Wilsomirski, Laura Grabowski, Misha Defonseca, Rigoberta Menchú, Margareth B. Jones, James Frey, Stephen Lawrence.

Dalrymple traz outros insights importantes, resumidos em frases impactantes:

Nem tudo que é mensurável é importante, ao passo que nem tudo que é importante é mensurável (Einstein) [p. 63]. Isso não significa que, às vezes, alguém que não expressou publicamente seu pesar ou imensa alegria, não se importava. Podia importar-se, mas no privado.

Não existe corrupção solitária (Mobutu Sese Seko) [p. 151]. Isso significa que nós todos, em alguma medida, somos atingidos pela pressão midiática, pelo sentimentalismo tóxico. A conclusão lógica que Dalrymple chega indubitavelmente é que Somos sentimentais do berço ao túmulo (p.74). O que fazer em vista disso, então?

Em primeiro lugar, chamar-se pessoalmente à responsabilidade (p. 70). Mark Manson e Brené Brown enfatizaram isso nos seus livros, respectivamente. Chegando a nos dizer que assumindo a responsabilidade pela nossa história podemos escrever seu final. Escolher o que é importante é escolher as batalhas que enfrentaremos e isso nos leva a economizar energia e tempo. Ele retoma esse conceito de responsabilidade pessoal também na página 171.

Em último lugar, um chamado ao retorno ao pensamento crítico (p. 199). Abandonado o pensamento irrefletido de que todos são vítimas (p. 88), pois antigamente a autopiedade é um vício repulsivo (p. 135-136), abandonar a ideia de que é sadio isentar-se de emitir julgamentos (p. 170). Ideia essa, inclusive, que adentrou nos arraiais do Cristianismo, infelizmente. Nas palavras de Dalrymple, apelo nenhum a fotografias de crianças africanas subnutridas substitui a reflexão (p. 192). Isto é, nenhum apelo emocional deveria nos fazer deixar de raciocinar. Afinal de contas, ninguém está imune ao sentimentalismo em sua esfera privada (p.87, 197). O que nos resta então é, valendo-se do dito de Pascal, decidir esforçar-se para pensar bem. Eis o princípio  da moral. (p. 199).