quarta-feira, 9 de agosto de 2017

O que é ser um cristão?

William Lane Craig diz em seu livro "Apologética para questões difíceis da vida" que todo ser-humano tem que ocasionalmente abrir sua sacola de dúvidas não resolvidas e lidar com elas. Uma dúvida muito recorrente entre as pessoas religiosas é se elas são, de fato, cristãs. O que realmente define um cristão? Como reconhecer um cristão dentre as pessoas? Lutero disse em seu Catecismo Maior: "Você não precisa chegar e dizer como você é devoto ou como você é ruim. Se você for cristão, já o sei; se não for, isso saberei melhor ainda”  .  Parece que Martinho Lutero diz aqui que a identificação do cristão é ex opere operato, ou seja, algo que prontamente reconhecemos. Mas o fato é que dada a pluralidade de ‘cristianismos’ fica difícil para nós nos reconhecermos como cristãos e reconhecermos outros como cristãos.

O termo cristão aparece apenas três vezes na Bíblia (Atos 11:26; 26:28; 1Pedro 4:16). Sua origem, segundo alguns, vem do campo militar e significa “soldados de Cristo”, “casa de Cristo”, “partidários de Cristo”. O título em si já estava em pleno uso no ano 60 d.C. Tanto o historiador Tácito, quanto o governador Plínio, o Moço, usavam o termo em suas respectivas épocas.

Os dicionários teológicos definem o cristão como aquele que crê em Cristo e procura viver de acordo com seus ensinamentos. “Aquele que diz estar nele, esse deve andar como ele andou” (1João 2:6). Jesus andou por toda a parte fazendo o bem e curando os oprimidos pelo diabo (Atos 10:38). O cristão, segundo essa definição, deve então fazer o bem a todos, especialmente aos da família da fé (Gálatas 6:10). No entanto, o cristão faz o bem a todos não para tornar-se cristão, mas por já sê-lo.

A questão que surge diante de nós agora é: “Ensinamentos de Cristo”. Onde se encontram? Qual a sua autenticidade? Há tantos supostos ditos de Jesus não registrados nos evangelhos canônicos (Mateus, Marcos, Lucas e João)   e eles devem ser aceitos como legítimos? A resposta é não e para não delongarmos inutilmente aqui acerca dessa questão recomendamos que se leia isto e isto.

Até agora, temos estabelecidos duas teses: A primeira delas é que um cristão é alguém que crê em Cristo Jesus, apega-se firmemente a ele. Martinho Lutero tem muitas frases esclarecedoras a esse respeito, uma delas que é pertinente aqui é: “Por isso alguém não é chamado de cristão por fazer muito; mas por tomar, buscar, deixar-se presentear por Cristo. Quando alguém não toma mais de Cristo não é cristão. O nome cristão fica no tomar e receber, não no fazer, porque não recebe nada de ninguém, exceto de Cristo. Se ele olha para o que faz já perdeu o nome de cristão. É verdade que devemos fazer boas obras, ajudar o próximo, aconselhar e dar; mas por isso ninguém se torna um cristão. Assim, se quisermos reconhecer se alguém é cristão conforme a palavra de Deus, temos de perguntar como ele está em relação a Cristo, se ele se apega somente à graça de Cristo. Por minhas obras, o jejuar, posso ser chamado de jejuador; por minhas peregrinações, um peregrino, mas não de cristão”.

Lutero prossegue seu pensamento e diz que na verdade, ser cristão consiste em reconhecer que somos pecadores e pedir misericórdia . Lutero ainda diz: “Ser cristão é possuir o evangelho e crer nele. Essa fé traz perdão dos pecados e graça de Deus”  .

Portanto, ser cristão é, antes de tudo, como pecadores que somos, nos apegarmos fielmente a Cristo Jesus conforme anunciado no evangelho e pedir sua misericórdia para recebermos perdão dos pecados.

A segunda tese que estabelecemos é que um cristão procura viver de acordo com os ensinamentos ‘autorizados’ de Cristo Jesus; Isto é, faz boas-obras. O apóstolo Tiago, irmão do Senhor, diz em sua epístola (2:14-26) que fé sem obras é uma fé morta, assim como o corpo sem espírito é morto. Lutero diz “onde não se seguem boas-obras aí a fé é falsa e não verdadeira ”. E: “Perante Deus é a fé que santifica servindo apenas a ele, ao passo que obras servem às pessoas ”.

Segundo o reformador, as obras se não forem úteis ao próximo sequer deveriam ser feitas . As nossas boas obras, segundo Lutero, só são boas por causa da fé; é a fé que torna boas as nossas obras. O ser humano se torna justo sem as obras, ainda que não fique sem obras depois de ter se tornado justo.

É evidente que a Bíblia tem muitos ensinamentos para os cristãos, tanto no Antigo Testamento quanto no Novo Testamento. Pessoalmente, seguindo Jesus, Paulo, João e Lutero, acredito que o que melhor sintetiza o cumprimento dos mandamentos é o amor (Romanos 13:8-10; Marcos 12:30,31) até mesmo porque a fé atua pelo amor (Gálatas 5:6). O amor é o caminho sobremodo excelente (1Coríntios 12:31 – 13:1). Daí que Jesus nos deu um novo mandamento: Amar uns aos outros (João 13:34). É-nos impossível cumprir esse mandamento como é impossível cumprir qualquer outro mandamento divino (Tiago 2:10), no entanto, o Espírito Santo vem e nos capacita mediante a fé, a graça e o amor a cumpri-lo (Romanos 5:5). Daí voltamos para a seguinte conclusão:

 Até para praticarmos boas obras como cristãos precisamos nos apegar a Cristo Jesus conforme revelado no evangelho, pedindo misericórdia para recebermos perdão de pecados.

Logo, um cristão é alguém que é pecador e por ser pecador se apega fielmente a Cristo Jesus conforme ele é revelado no Evangelho sedento da misericórdia de Deus para receber o perdão de seus pecados.


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                                                 BIBLIOGRAFIA

  LUTERO Martinho, Catecismo Maior do Dr. Martinho Lutero trad. Walter O. Schlupp, São Leopoldo, Sinodal; Porto Alegre: Concórdia, 2012, p. 132.

  O termo acadêmico para designar esse conjunto de ditos de Jesus é Ágrafa.

  APUD FERREIRA Franklin, Pilares da Fé: Atualidade da mensagem da Reforma , São Paulo, Vida Nova, 2017, p. 40.

 LUTERO Martinho, Catecismo Maior do Dr. Martinho Lutero trad. Walter O. Schlupp, São Leopoldo, Sinodal; Porto Alegre: Concórdia, 2012, p 131.

  WOLF Manfred Mais uma pergunta Dr. Lutero...: Entrevista com o Reformador, trad. Hugo Solano Westphal, São Leopoldo, Sinodal, 2011, p. 35.

  FERREIRA Franklin, Pilares da Fé: Atualidade da mensagem da Reforma, São Paulo. Vida Nova, 2017, p 158.

  LUTERO Martinho, Catecismo Maior do Dr. Martinho Lutero trad. Walter O. Schlupp, São Leopoldo, Sinodal; Porto Alegre: Concórdia, 2012, p 49.

  HELMER Christine Lutero: Um teólogo para tempos modernos; trad. Geraldo Korndörfer, São Leopoldo, Sinodal, 2013, p. 247.


sábado, 29 de julho de 2017

O cristão em crise?!


Introdução: Você já ouviu falar ou conhece algo sobre o triunfalismo ou o movimento da palavra da fé? Esse movimento que esteve tão em voga no evangelicalismo televisivo brasileiro declara entre outras coisas que o cristão não permanece doente, pobre ou em crise seja ela qual for. Se isso acontece, é sinal de falta de fé, pecado não confessado, rebeldia contra o ungido do Senhor. Asafe parece ir na contramão desse pensamento aqui. O que Asafe ensina aqui é que não raro um cristão verdadeiro sofre. Sofre fisicamente, emocionalmente, financeiramente. Asafe lida aqui com o que Leibniz cunhou como “teodiceia”. A tentativa de justificar Deus diante do sofrimento humano e aparentes injustiças no Universo. A tentativa de explicar porque o mau atinge pessoas boas. 

Quando Asafe descreve o cristão em crise por causa do mal no mundo, especialmente o bem-estar daqueles que não tem nenhum relacionamento com Deus, ele descreve cinco verdades em relação à ele:

I. Geralmente é alguém que está vacilante em sua fé – v. 2

 O texto na NVI diz assim: “Quanto a mim, os meus pés quase tropeçaram; por pouco não escorreguei”. Os termos tropeçar e escorregar aqui, remetem à uma metáfora de alguém pisando em terreno escorregadio, sem nenhuma firmeza. Fala de uma água derramada levada de um lado por outro.  Asafe não tinha mais convicção da bondade de Deus tão vivamente proclamada na abertura. Asafe não tinha mais convicção da utilidade de servir a Deus (v. 13). 

Parece recorrente em toda a Bíblia essa hesitação. Os cristãos hebreus a quem é dirigida a epístola de Hebreus pareciam estar vacilantes em relação a utilidade de seguir a Jesus Cristo (Hb. 10:19-25). Os cristãos gálatas pareciam estar querendo voltar a sua antiga filosofia de vida (Gl. 4:9).

Esses e outros experimentaram na pele a máxima de Provérbios: “A esperança que se retarda deixa o coração doente, mas o anseio satisfeito é árvore de vida” (Pv. 13:12). Asafe, os hebreus e os gálatas pareciam ter visto sua esperança retardar e quando isso acontece o nosso espírito se abate (Sl. 143:7).

II. Pode desenvolver doença física – v. 14, 26

O texto parece fazer uma antítese entre o corpo de Asafe e o corpo daqueles a quem ele invejava. O verso 5 diz que eles não são atingidos por doenças como outros homens. Aqui no verso 14, usa-se a mesma expressão para dizer que, ao contrário deles, Asafe sim é tocado, isto é, por doenças. O que ele confirmará no verso 26 quando diz “o meu corpo pode fraquejar”. O fraquejar do v. 26 significa “falhar, deixar de desempenhar a função, parar de funcionar corretamente”. 

Ao contrário do que se ensina na Palavra da Fé, a Bíblia demonstra inúmeros casos de pessoas que adoeceram. Paulo, Trófimo, Timóteo, Ezequias, Dorcas. Como a Bíblia apresenta o homem como um todo unificado, as doenças de Asafe se relacionam com o estado de sua alma. O que psicologia moderna chama de ‘doenças psicossomáticas’. Não sabemos se as dores de Asafe surgiram do estado de seu espírito ou o contrário. O fato é que quando Asafe olhava para seu próprio corpo e o contrastava com o corpo daqueles que não se relacionavam com Deus a inveja ressentida aumentava.

III. Vivencia um senso de reprovação divina – v 14b

Asafe continua: “Todas as manhãs sou castigado”. O termo castigado significa também reprovado. O que Asafe está dizendo é que não importa o quanto cumprisse seu dever religioso e moral, ele parecia ser alguém que sempre estava aquém do sorriso e da aceitação de Deus. Asafe não era alguém que não experimentou a justificação pela fé, ao contrário, mesmo experimentando um relacionamento com Deus (v. 23), ele se sentia distante desse Deus. Esse fato só levava a inveja a crescer, pois ao contrário dos ímpios, que eram populares e requisitados (v. 10), Asafe não tinha ninguém a quem se apegar, parecia que ninguém se importava com o salmista. O fato mais curioso para mim nesse caso é quem Asafe era e o que fazia. Era líder de um coral no Tabernáculo, era um profeta de Deus, um homem que certamente, dada sua posição, ouvia muitas pessoas, aconselhando-as e agora, estava só. 

Asafe e Paulo parecem ter tido um momento recorrente assim em suas vidas. Paulo, escrevendo a Timóteo diz: “Você sabe que todos os da província da Ásia me abandonaram” (2Tm. 1:15). “Demas, amando este século me abandonou” (2Tm. 4:10) “Na minha primeira defesa, ninguém apareceu para me apoiar” (2Tm 4:15). 

A história eclesiástica reforça esse sentimento. Disseram para santo Atanásio: “Atanásio, o mundo está contra Ti”, ele respondeu: “Atanásio está contra o mundo”. William Cowper, famoso poeta inglês, sentia que Deus tinha graça para todos, menos para ele.

Se viver a graça é melhor que estar vivo (Sl. 63:3), esse senso de reprovação é pior que a morte. 

IV. Temporariamente possui uma visão limitada da realidade – v. 22

Asafe se reconhece como ‘tolo’. De acordo com o Sl. 92:6, o tolo não entende, não vê. Parece, para usar a linguagem de Pedro, que ele havia esquecida da purificação dos seus antigos pecados, pois isso é a atitude de um homem que experimenta uma cegueira espiritual temporária, e lembre-se, Asafe era um cristão e Pedro estava escrevendo para cristãos (2Pe. 1:8-11).

Asafe reconhece que enquanto estava inflamado pela inveja não conseguia entender (v. 16). Asafe tinha uma visão imediatista na sua crise, pois ele só foi adquirir uma compreensão do fim dos ímpios (fim escatológico) quando tem diante de Si a realidade de Deus (v. 17). 

V.  É alguém que se recusa a desfrutar da graça de Deus – v. 22b

 Comentando a expressão ‘animal irracional’, O DITAT (Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento) diz (p. 293): “(o termo) ocorre cinco vezes em Salmos e Provérbios. Tal pessoa é aquela que se recusa a aceitar a graça de Deus [Sl. 73:22]”. É dificílimo conciliar a graça comum de Deus na vida dos pecadores (Mt. 5:45). É dificílimo aceitar que Deus abençoa com bênçãos materiais (chuva, sol, comida, bebida) aqueles que fazem pouco caso dele e nos deixam passar dificuldades. Isso cria em nosso coração as raízes de amargura que nos separam da graça de Deus (Hb. 12:15). Veja que Asafe estava amargurado (Sl. 73:21). 

Para concluir, querendo enfatizar, a atitude de Deus, que até pode desembocar num estudo posterior, para com o crente em crise. Asafe diz que Deus: Sustenta, dirige e aceita o cristão com sua crise (Sl. 73:23,24). Deus não escorraça, Deus não joga fora (Jo. 6:37). Deus sustenta, dirige e aceita! Soli Deo Glória.