sábado, 25 de outubro de 2014

497 anos de Reforma Protestante: Um convite à reflexão




Todos os historiadores datam o início da Reforma como sendo o dia 31 de Outubro de 1517. Justo González e Hernandes Dias Lopes dizem que o dia que Martinho Lutero escolheu para afixar as teses na Igreja de Wittenberg foi estratégico, pois que antecedia o dia de todos os santos, aonde todos os fiéis iam a Igreja e assim todos puderam ver as teses do Teólogo nas quais ele analisava uma série de comportamentos da Igreja Romana.

Neste mês estamos comemorando 497 anos de Reforma e eu gostaria de analisar com todos 7 fatos sobre A Reforma Protestante. Esses fatos são como segue:

1.    A reforma é uma obra que começou em Deus

A semente da Reforma não estava apenas em Lutero, antes dele vieram homens desejosos de uma reforma na Igreja Medieval, dentre esses homens podemos citar Jerônimo Savonarola e João Huss, por exemplo. Não apenas isto, mas também havia o desejo no povo de uma Reforma no Clero devido a Corrupção e aos escândalos, tão grandes eram que os clérigos pagavam aos bispos para terem relações sexuais, acabavam de celebrar a Missa e iam para  as festas se embriagarem e jogarem.

 Como era uma obra originada em Deus, Ele trouxe apoiadores para Lutero como, por exemplo, num primeiro instante, Erasmo de Rotterdam e os humanistas, Frederico, o Sábio. Sendo uma obra originada em Deus, A reforma não aconteceu apenas na Alemanha, mas a rainha do que hoje é a Espanha, rainha conhecida como Isabel, a católica, já desejava uma reforma na Igreja Nacional, evidente que não seguiu os padrões luteranos, mas é suficiente para demonstrar que isso não era um devaneio de um professor de Teologia, e sim, uma obra que nasceu em Deus. Um dos movimentos que precederam a Reforma é conhecido como “Irmãos da Vida Comum”, movimento originário nos países baixos, esses “irmãos” como os humanistas, prezavam pela Leitura das Escrituras nos idiomas regionais, um pilar que Lutero seguiu.

Sendo uma obra que nasceu em Deus, a Reforma protestante coincidiu com o período renascentista, onde todos puderam vislumbrar grandes conquistas. Com o renascentismo, a hegemonia da Igreja Romana foi sendo quebrada em diversas áreas, das quais a Reforma é apenas a Área doutrinária-teológica. Por exemplo, é nessa época de renascentismo que Galileu Galilei e Copérnico vão afirmar o mundo era Heliocêntrico, ou seja, que a Terra gira em torno do Sol, contrariando e retirando assim a hegemonia da Igreja Romana sobre a Ciência. O período renascentista foi extremamente importante para a Reforma devido a invenção da Impressa por Johannes Guttenberg, tão  grande era o desejo do povo por uma religião pura que a primeira obra a ser impressa foi uma Bíblia, hoje conhecida como Bíblia de Guttenberg.

Tendo demonstrado que a Reforma surgiu em Deus, sabemos que ela é também:

2.    Uma obra extremamente erudita

Erasmo de Rotterdam ou Erasmo Desidério, erudito cristão, humanista que viveu entre 1466-1536 foi um homem que ao lado dos humanistas descortinou diante do povo uma paixão pelos idiomas clássicos (aramaico, latim e grego) mas o fizeram de forma independente do viés da Igreja, de fato, os estudiosos italianos desse período, em sua maioria, eram homens mais conhecidos pela erudição do que pela piedade. Os próprios papas caem nessa categoria.  Quando Lutero afixou as 95 teses na Igreja de Vittemberg, o fez visando um debate acadêmico, visto que estavam escritas em Latim, idioma que o povo comum desconhecia, com exceção de alguns poucos. Lutero queria propor aos acadêmicos que reavaliassem a Teologia da Época. Prova de tal erudição é que anos depois Lutero é seguido por muitos professores de Teologia em suas colocações.

Vale ressaltar também que esse desinteresse pela Teologia é algo que os reformadores desconhecem. Lutero era doutor em Teologia já em 1512, Calvino, era doutor em Artes e também formado em Direito. Quando o protestantismo penetrava em algum país, os pastores preparavam seminários para futuros líderes. Diga-se de passagem, que na época da Escolástica a Teologia era conhecida como a “Rainha das Ciências”.

Lembremo-nos amigos que nessa época havia o Índex, ou seja, um conjunto de livros que a Igreja Romana proibia o uso. Esse Índex, incluía todas as versões da Bíblia, exceto a Vulgata (versão até então oficial de Roma) e todos os livros que incitassem a pesquisa de um modo geral.

Os reformados em geral seguiram esse moto de erudição. Spurgeon, príncipe dos pregadores dizia: “Visite bons livros, fique na Bíblia”. Há comentaristas que dizem que quando o apóstolo escreveu a Timóteo: “Traga-me também os livros”, o apóstolo estava referindo à livros de pesquisa. Se cremos assim, temos então, que a erudição vem desde os tempo neo-testamentário e de fato, sabemos que como fariseu, o apóstolo foi um homem erudito.

3.     Uma obra Bíblica.

Tem sido asseverado que Lutero ao iniciar a Reforma conhecia pouco a Bíblia, ledo engano. O monge agostiniano e reformador já havia feito preleções em Gálatas e Salmos antes de Iniciar a Reforma e foi durante o preparo das preleções em Romanos que ele descobriu a doutrina da Justificação somente pela fé. Já em 1512, ele tinha o doutorado em Teologia, sendo alguém exímio conhecedor da Escritura.

Conta-se que Lutero iniciou a Reforma lendo as palavras de Romanos 1:17,que diz: “Porque no evangelho é revelada a justiça de Deus, uma justiça que do princípio ao fim é pela fé, como está escrito: "O justo viverá pela fé"”. Romanos tem sido uma carta que Deus tem usado para grandes avivamentos, diga-se de passagem. Foi a carta que desempenhou a conversão de Agostinho de Hipona, a carta da Reforma e a carta da Vida de Wesley.

Há autores que dizem ainda que junto com Romanos 1:17, Lutero descobriu o principio da Justificação pela Fé lendo também Romanos 4:5 que diz: “Todavia, àquele que não trabalha, mas confia em Deus que justifica o ímpio, sua fé lhe é creditada como justiça.”

Ao descobrir a verdade da Justificação somente pela fé, Lutero desenvolve cinco Solas ou cinco “Somentes”,  onde a ênfase recai sobre a Palavra somente, indicando que a fonte autoritativa da Igreja estava mudando.

 Sproul nos informa que ao declarar a justificação pela Fé através do “Sola Gratia” (Somente a Graça), Lutero rechaçou completamente a tradição teológica medieval do “Tesouro pelos méritos”, teologia romana que dizia que os santos piedosos acumulavam ‘créditos’ diante de Deus e que quando esses santos piedosos morriam e iam ao paraíso, o restante do ‘crédito’ que tinham com Deus ficava na conta da Igreja, que poderia usá-los para tirar alguém do Inferno, ou Purgatório.

Esse “Tesouro de Mérito” era o que embasava a doutrina da venda de Indulgências. Inclusive, diga-se que foi a indignação com a  venda de Indulgências feitas por Tetzel na Alemanha para arrecadar fundos para a construção da Basílica de São Pedro que levou Lutero a afixar as suas teses.

Como já dissemos, a fonte autoritativa da Igreja mudou com a Reforma. Na Igreja Medieval, a Escritura e a Tradição estavam em pé de igualdade, agora, entretanto, o que prevalece é a Escritura e a tradição é serva da Escritura. É importante ressaltar que os reformadores fizeram questão de não desprezar a tradição como muitos hoje fazem... O apóstolo Paulo até elogia quem retém a tradição nas suas epístolas. O principio do Sola Scriptura quer dizer que a Escritura é a única fonte infalível a qual a Igreja deve submeter-se como esclarece Sproul.

A reforma foi uma obra bíblica porque o que era importante na época não era o texto sagrado, mas sim as notas de rodapé. Os reformadores, no entanto, enalteceram a Escritura. Lutero dizia: “Onde não se anuncia a Palavra, ali a espiritualidade será deteriorada”. Lutero denominou esse principio pelas palavras latinas “Sola Scriptura”. (Somente a Escritura). De fato, Lutero pronunciou essas palavras quando repreendeu um grupo de entusiastas que ele chamou de “Profetas de Zwickau” que diziam que não havia mais necessidade de Escritura, pois que o Espírito lhes falava diretamente.

Esse apreço pela Escritura pode ser visto também na Confissão das Igrejas Reformadas da França que diz: “Não é lícito aos homens, nem aos anjos, fazer, nas Santas Escrituras, qualquer acréscimo, diminuição ou mudança. Por conseguinte, nem a antiguidade, nem os costumes, nem a multidão, nem a sabedoria humana, nem os pensamentos, nem as sentenças, nem os editos, nem os decretos, nem os concílios, nem as visões, nem os milagres devem contrapor-se as estas santas: mas ao contrário, é por elas que todas as coisas devem examinar, regular e reformar”. Lutero disse: “Qualq]uer ensinamento que não se enquadre nas Escrituras deve ser rejeitado, mesmo que faça chover milagres todos os dias”

4.    Uma obra providencial:

O pai de Lutero queria que o Reformador fosse advogado e não um monge agostiniano. O que o levou a sê-lo foi o medo da morte diante de um raio que o atingiu no meio de uma tempestade, na qual, Lutero fez um voto a Santa Ana que se ela o livrasse da morte, ele seria monge e assim o fez. Deus, em sua providência, Levou Lutero ao encontro de João Staupitz que o orientou a olhar para o Crucificado quando atormentado pelos seus pecados. 
A influência de Staupitz pode ser vista naquilo que o Reformador chama de Teologia da Cruz, que em miúdos quer dizer que a melhor revelação de Deus está na condescendência de Deus aos pecadores na Cruz de Cristo.

Outro fator importante na vida de Lutero foi o respaldo que Frederico, o Sábio, eleitor da Saxônia lhe deu. Quando ameaçado de morte na dieta de Worms em 1521, Lutero foi capturado por exércitos de Frederico e levado a um castelo que nem mesmo Frederico sabia onde era e pôde ali compor a sua tradução da Bíblia para o Alemão e compor também vários tratados protestantes e várias canções como, por exemplo, castelo forte é o nosso Deus.

Outra prova providencial para o protestantismo foi a Morte de Maximiliano e a confusão do papado. Isso fortaleceu a Teologia Luterana de que Cristo era o cabeça da Igreja e não o papa e o povo entendeu que isso era sinal da aprovação divina. Acrescenta-se a isso, o fato da morte de Maria Tudor, a Sanguinária. Exímia perseguidora dos protestantes, mulher cruel, foi removida do trono abrindo caminho para Isabel I, a mulher que impulsionou a reforma da Igreja da Inglaterra (Anglicana).

Outro fator importante nesse período foi a guerra entre Carlos V que queria extirpar o Protestantismo e Francisco I que queria tirar-lhe o trono. Isso deu um fôlego para o protestantismo, pois ora Carlos precisava do apoio dos protestantes e lhes dava tréguas. Tréguas que inclusive chegavam mesmo aos católicos e protestantes. Isso aqui é de importância vital para nós, porque nenhum reformador queria dividir a Catolicidade da Igreja, queria apenas reforma-la. Os católicos são muito amados pelos protestantes e vice-versa, aprendemos, pois a divergir com respeito e amor. Cabe aqui o dito de Agostinho: “Nas coisas essenciais unidade, nas coisas não essenciais, liberdade e em todas as coisas o amor”.  Eu mesmo amo demais uma família de amigos católicos que tenho e os respeito.

Outra prova providencial vem de Guilherme Farel e Calvino. Conta-se que Calvino queria um lugar tranquilo para estudar a Escritura e foi refugiado para a Suíça.  De passagem por Genebra, Farel suplica-lhe que fique por lá, no entanto, Calvino, que nem queria ser reformador resiste e só permanece devido a uma imprecação que Farel lhe lança se passasse por Genebra sem auxilia-lo. João Knox, pai do presbiteriano escocês, diz que Genebra é a “mais perfeita escola de Cristo desde os tempos dos apóstolos.” Foi lá que Calvino compôs as Institutas da Religião Cristã.

5.    Uma obra diversificada
  •  Quanto a Liderança
Havia duas classes de reformadores: Magisteriais* (aqueles que encabeçaram o movimento) como, por exemplo, Lutero, Melancthon, Bucero, Ecolampádio, Zwínglio, Calvino, Knox e os radicais (aqueles que achavam que os reformadores foram superficiais demais na Reforma), como, por exemplo: Menno Simons, Hubmaier. Há ainda Jacobus Arminius líder dos remonstrantes, teólogo, aluno de Teodoro Beza. Pastor dedicado que discordava da predestinação calvinista e eleição incondicional.

  •       Nos sacramentos 

     Acerca da Eucaristia:

Lutero e Zwinglio chegaram a conclusões semelhantes pelo Estudo da Escritura e foram grandes instrumentos de Deus na Reforma, no entanto, divergiram totalmente na questão da Ceia do Senhor.

Lutero defendia algo que conhecemos como Consubstanciação.

Consubstanciação é Ideia característica da teologia luterana de que na Ceia do Senhor o pão e o vinho não são transformados no corpo e no sangue de Cristo, mas que as moléculas da carne e do sangue estão presentes "em, com e sob" as moléculas do pão e do vinho.

Zwínglio já defendia que a Ceia era apenas um memorial do Calvário. Tendo por base o dito do Senhor: “Façam em MEMÓRIA DE MIM”... Sendo o pão tão somente pão e o vinho tão 
somente vinho.

     Acerca do Batismo:

Há uma longa disputa teológica sobre o batismo. Se deve ser feito por aspersão ou por imersão, se deve ou não batizar crianças. Os reformadores batizavam crianças. Os anabatistas (rebatizadores) não. Há igrejas reformadas que batizam crianças, outras não. Os dois lados tem bons argumentos. Mas ouçamos o Didaquê escrito em meados do segundo século nos diz:

No que diz respeito ao batismo, batizai em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo em água corrente.  Se não tens água corrente, batiza em outra água; se não puderes em água fria, faze-o em água quente.  Na falta de uma e outra, derrama três vezes água sobre a cabeça em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo.

Observe que ele dá espaço tanto para aspersão como para imersão. Essa é uma discussão inconclusa desde os tempos dos pais apostólicos.
  •           Nos Países  – Alemanha, Suíça, Escócia, Holanda, França –
 A Reforma não foi algo regional, foi algo mundial... Alcançou todos os confins da terra.  Inclusive Calvino enviou para o Brasil, uma delegação de pastores calvinistas...
  •     Nas ramificações: Pietismo, Luteranismo, Anglicanismo, Arminianismo, Calvinismo, Pentecostalismo.
Luteranismo: Todos os que discordavam da teologia romana, a princípio receberam essa terminologia. São os discípulos de Lutero. Sua Teologia fundamenta-se principalmente na Justificação somente pela fé dentre outras coisas.

Pietismo: Movimento iniciado no séc. XVII em reação ao escolasticismo luterano. Enfatizava a Fé pessoal e o anti-intelectualismo. Seus principais líderes foram: Spener e Frank. Atualmente, se vê uma semelhança entre algumas alas do Cristianismo com o Pietismo do séc. XVII,  que priorizam mais a subjetividade do que a Escritura. Tornemo-nos ao Sola Scriptura. Os quackers também tinham muito do pietismo e da sua “luz interior”, onde não necessitavam tão agudamente da Escritura, mas o Espírito lhes falava individualmente... Faz-nos lembrar dos espiritualistas da Reforma, isto é, os profetas de Zwickau que rechaçaram a Bíblia dizendo: “Poderá a Bíblia fazer-nos sermão?”

Anglicanismo: Teologia Cristã baseada na Reforma Eclesiástica promovida por Henrique VIII na Inglaterra.  O Pr. Claudionor de Andrade nos diz que o Anglicanismo Visava estabelecer uma doutrina pura e combater a corrupção clerical. Seus pilares são: A Bíblia como autoridade infalível e final em questões de fé e prática, os sacramentos (Ceia e Batismo), o credo dos apóstolos, o governo episcopal, a oração do Livro Comum e os 39 artigos da Religião. Thomas Cranmer está entre seus principais teólogos e pensadores. O interessante do Anglicanismo é que ele dá a liberdade aos reverendos de posicionarem-se sem represálias, exemplo: Se a Igreja anglicana é cessacionista e o reverendo se diz ser continuísta, isso não constitui problema para a denominação.

Arminianismo: Calvinismo e Arminianismo são estritamente falando uma cosmovisão soteriológica, pois dizem respeito à origem e ao desenvolvimento da Salvação humana. O Arminianismo desenvolveu-se após a morte de João Calvino e opunha-se a Predestinação Pessoal e Eleição Incondicional ensinada por teólogos calvinistas como Beza. Arminius que era teólogo, nunca ensinou abertamente suas doutrinas, mas seus alunos reuniram seus escritos e os publicaram no Sínodo de Dort como os “Cinco Pontos da Remonstrância”. Eles ensinavam que: 1) a Predestinação depende de como o homem corresponde com Deus; 2) Cristo morreu por todos, mas só serão salvos aqueles que creem; 3) Todo ser humana recebe a “Graça preveniente” de Deus que o capacita a aceitar ou rejeitar o Evangelho; 4) Essa Graça pode ser resistida; 5) Mesmo aqueles que o Aceitaram a Cristo, podem vir a cair da Graça e perder-se eternamente.

Calvinismo: Ensino que erroneamente recebeu o nome de Joao Calvino por ser ele seu principal expoente no séc. XVI, que no entanto, remonta até o ensino Bíblico, perpassando por  Calvino, Teodoro Beza, Spurgeon,  George Whitefield, John Bunyan,  Jonh Piper, Augustus Nicodemus, Hernandes Dias Lopes, Paulo Anglada, Jonh Owen, Jonathan Edwards e tantos outros, inclusive este que vos escreve. O calvinismo também é conhecido como as “Doutrinas da Graça”. Seus ensinos soteriológicos são resumidos no acróstico inglês TULIP que são como segue:

Total depravação (T) – O homem está espiritualmente morto nos seus delitos e pecados, totalmente incapaz de fazer o bem, cego para as coisas de Deus, é filho da Ira, é Inimigo de Deus é escravo do pecado é refém do diabo. Por natureza, tudo o que faz é contrário a Lei de Deus, não tem nenhuma inclinação salvífica para ir a Deus.

Eleição Incondicional (U) – Deus desde a eternidade, livre e soberanamente escolheu dentre toda a raça caída, alguns pecadores que lhe aprouve salvar sem consentimento algum por suas obras ou escolhas futuras. E de forma incondicional fez deles ‘seus vasos de misericórdia’.

Expiação Limitada (L) – Cristo morreu por todos aqueles que Deus decidiu salvar na mais remota eternidade, estes que são os Eleitos, compõem seu povo, sua Igreja. De fato, há redenção possível para todos os homens, mas só a redenção eficaz para os quais Deus Pai elegeu e Cristo Jesus redimiu na  Cruz.

Graça Irresistível (I) – Aqueles que o Pai elegeu na eternidade, que Cristo redimiu na cruz, serão no tempo oportuno atraídos pelo Espírito Santo que lhes aplica eficazmente a obra expiatória de Cristo. Eles podem inicialmente apresentar resistência, mas a operação do Espírito supera toda resistência e no fim, os eleitos serão convencidos pelo Espírito pela pregação do Evangelho e sem terem sua vontade violada virão de modo irresistível a Cristo Jesus.

Perseverança (de Deus) nos Santos (P) – Aqueles que o Pai elegeu, o Filho redimiu e o Espírito selou não poderão cair total nem definitivamente do estado de graça, Deus os guardará e os levará a seu reino celestial.

Pentecostalismo: Movimento surgido nos Estados Unidos com estrita ligação com as Igrejas Holiness (que priorizavam a Santidade na vida), inicialmente com Charles Parham e seus alunos do Instituto Bíblico em Topeka em 1900 de onde ficou marcado distintivamente pela glossolalia (falar em línguas). Suas raízes são nitidamente arminianas, entre seus maiores expoentes conhecidos encontra-se Charles Finney, que, diga-se de passagem, em sua Teologia Sistemática declarou-se pelagiano abertamente. Phoebe Palmer, que era evangelista, também desempenhou um papel importante na difusão do Pentecostalismo. 

Outro Arminiano bastante conhecido é John Wesley, que anteriormente fora ministro anglicano e fundou o Movimento Metodista.  Hoje, a maioria das denominações protestantes são arminianas. Suas principais doutrinas são: A atualidade do batismo do Espírito Santo como segunda benção e os dons espirituais, curas divinas, a iminente volta de Cristo, sua escatologia é dispensacionalista.  Hoje, há muitos reformados que se declaram pentecostais reformados, dentre esses conta-se o Bispo Walter McAlister, Bispo Primaz das Igrejas Cristãs Nova Vida, homem que admiro e considero.

6.    Uma obra perseguida

A perseguição é um dos sinais mais seguros da autenticidade do nosso cristianismo. (Benjamin E. Fernando)

De fato, todos os que desejam viver piedosamente em Cristo Jesus serão perseguidos (Paulo, apóstolo)

Como toda obra que origina-se em Deus é perseguida, tal aconteceu também com a Reforma Protestante. Podemos destacar três áreas nas quais a Reforma foi perseguida:

- Internamente: Profetas de Zwickau e seu desprezo pela Bíblia (Entusiastas)
- Externamente: Papado e Inacio de Loyola e a Companhia de Jesus
- Politicamente: Rompimento com Erasmo e os humanistas

Por ora, já que comentamos resumidamente sobre os profetas de Zwickau e sobre Erasmo e os humanistas, detenhamo-nos agora à Companhia de Jesus também conhecida como Jesuítas.

 “Fundada por Inacio de Loyola, essa ordem monástica reconhecida pelo Vaticano em 1540. A obra missionária tem sido o maior alvo dos jesuítas. Após o seu estabelecimento foram usados também para combater o protestantismo (através da Inquisição) e foram eles os pioneiros nas missões transculturais (no sentido hodierno) e seu teólogo oficial é Tomás de Aquino”.

A vida de Loyola assemelha-se muito a de Lutero, seus conflitos pessoais, seu desejo reformador, seu apreço pela Teologia, Seu zelo evangelístico. A Contra-Reforma estabeleceu o concílio de Trento para rechaçar as doutrinas protestantes e contou com a Companhia para difundir esses ensinos e matar os dissidentes e hereges.  Podemos contar entre essas chacinas a noite de São Bartolomeu, o Índex e tantas outras coisas.

7.    Uma obra imperfeita

De inicio dissemos que a Reforma foi uma obra de Deus e isso é totalmente claro. Todavia, a Reforma foi também uma obra humana e como tal, tendo homens na liderança foi uma obra falha como todos os homens são falhos. Queremos relatar aqui alguns eventos que mostram a falibilidade da Reforma

è  Nova Jerusalém em Münster

Com o movimento anabatista anunciava-se a iminência do dia do Senhor Jesus e cria-se que a Nova Jerusalém seria estabelecida nas cidades celeiros onde a Reforma havia triunfado. A primeira dessas cidades foi Estrasburgo. Então alguém disse que na realidade a Nova Jerusalém seria estabelecida, não em Estrasburgo, mas sim em Münster. Cidade onde os católicos e protestantes viviam pacificamente incialmente. No entanto os anabatistas radicais expulsaram o bispo que acabou sitiando a ‘Nova Jerusalém’ deixando-a sem alimentos. Devido à guerra constante e o êxodo de muitos homens, a população feminina da cidade era muito maior que a masculina, e João de Leiden decretou a poligamia, usada pelos patriarcas do Antigo Testamento.

É interessante notar que já no século XVI havia alguns que defenderam erroneamente o local do estabelecimento do Reino tal qual fizeram Ellen G White e Charles T Russel, principal profetisa do movimento Adventistas do sétimo dia e um dos principais líderes dos Testemunhas de Jeová, note que tanto os Adventistas quanto as Testemunhas surgiram de um mesmo grupo evangélico e ao mesmo tempo e tem doutrinas muito semelhantes. O episódio com os anabatistas revolucionários serve para prevenir-nos com os excessos escatológicos. Excessos esses que os Adventistas e as Testemunhas fizeram. As Testemunhas foram por duas vezes frustradas com sua profecia e agora dizem que Cristo veio  invisível e secretamente  em 1914.

è Falibilidade dos líderes: Lutero e Calvino bebiam e Lutero aconselhou bigamia

Para espanto de muitos protestantes, Lutero e Calvino eram bons consumidores de cerveja. Há inclusive uma cerveja que se chama Calvinus em homenagem ao Reformador. Lutero inclusive disse que durante a Reforma ele bebia cerveja e a Palavra fazia tudo. Diga-se de passagem, que beber uma cerveja não é pecado, o pecado é embriagar-se e deixar-se ser vencido pelo alcoolismo. A maioria dos protestantes não bebem para não escandalizar os mais fracos na consciência e por ser mal visto nos círculos mais radicais. Mas a Escritura até estimula o uso de Vinho. Tanto para medicamento (1 Timóteo 5:23) como meio de relaxamento (Provérbios 31:6,7). Nosso Senhor mesmo bebeu vinho (Lucas 7:33,34). Inclusive, Spurgeon, príncipe dos pregadores, durante certo tempo de seu ministério fumava charuto.

Quanto a questão da Bigamia note que o primeiro golpe que o protestantismo recebeu nesse sentido foi a bigamia de Felipe de Hesse. Este chefe da Liga de Esmalcalda era um homem digno e dedicado à causa protestante, que tinha sem dúvida algumas fortes dores de consciência porque lhe era impossível levar uma vida marital com sua esposa de vários anos e tampouco tinha condições de ser continente. Não se tratava de um libertino,  mas de um homem atormentado por seus apetites sexuais, e pelo remorso que sua satisfação ilícita lhe causava. Felipe pediu conselho aos chefes principais da Reforma, e Lutero, Melanchton e Bucero concordaram em que as Escrituras não proibiam a poligamia, e que Felipe podia tomar uma segunda esposa sem abandonar a primeira, desde que isso não fosse público, pois a lei civil proibia a poligamia. Felipe seguiu o conselho e quando o escândalo surgiu, tanto ele como os teólogos a quem havia consultado se viram numa situação um tanto difícil.

Devemos nos atentar a esse fato simplesmente porque, nós, teólogos podemos ter opiniões divergentes e falhas, pois nem sempre a Escritura é clara em todos os assuntos. Ela é clara no que tange a mensagem de Salvação, mas em outras coisas como a problemática da antinomia teológica ela nem sempre é clara. Por essa razão devemos olhar para a história passada da Igreja e aprender com ela, visto que ela pode ser nossa pedagoga ou coveira, isso só depende de como a tratamos. Aprendemos com esse fato que mesmo entre aqueles que professam a mesma fé, haja disparidades em algumas coisas não essenciais.


Sem contar o fato que Lutero considerava a Epístola de Tiago, uma ‘Epístola de Palha’ porque não tinha nela nada de Evangélica, ele definia um Cânon dentro do Cânon. No entanto, nos seus estudos posteriores, Lutero deixou de chamar a Epístola de Tiago de 'Epístola de Palha'.¹

è A execução de Miguel Serveto

Há aqueles que gostam de mencionar aos reformados que Calvino matou Serveto e assim dizem que o Reformador é falho. Ora, qual o homem que não é falho? No entanto, devemos fazer justiça aos fatos sobre a condenação de Serveto.

Tudo começa quando Calvino decide permanecer em Genebra a pedido de Farel a fim de conduzir a Reforma em Genebra. Porém quando se impôs que se seguissem fielmente os princípios reformadores, muitos dos huguenotes ofereceram resistência a Calvino e ele foi obrigado a ser exilado junto com Farel. No entanto, Genebra solicitou o retorno de Calvino e durante doze anos seguintes houve conflitos entre o consistório (liderança eclesiástica) e o governo da Cidade. Pois o consistório tratava os costumes com uma severidade que nem sempre era do agrado do Governo Genebrino.

Nesse ínterim, foi que começou o processo de Miguel Servetto, que era médico, escritor de vários livros de Teologia e que chegou a equivocada conclusão de que o concílio de Nicéia havia ofendido a Deus com o dogma da Trindade e que a união da Igreja com o Estado constituía numa grande apostasia. Serveto já havia sido condenado por um concílio católico na França e, fugitivo, passando por Genebra foi ouvir Calvino pregar onde foi reconhecido e preso. Os próprios resistentes à causa protestante apoiaram a prisão de Serveto e Calvino consultou os demais países protestantes sobre o que deveria fazer com Serveto e todos concordaram que ele era um herege e deveria ser executado. Calvino prepara então uma lista de 38 acusações contra Serveto e ele é condenado à fogueira, todavia, Calvino, ameniza a execução e o faz ser decapitado o que segundo se diz é uma pena menos dolorosa. Calvino, façamos justiça, foi um homem demasiado rígido, pois expulsou Sebastião Castellón da cidade por interpretar Cântico dos Cânticos como um poema de amor. Mas, se fomos falar que a execução de Serveto mancha de modo irreversível o caráter de Calvino, devíamos também falar que a Inquisição mancha irreversivelmente e de uma proporção maior ainda o caráter da Igreja Romana. Apesar da imperfeição presente na Reforma, não podemos negligenciá-la. Foi uma obra que foi um marco e admiramos a ousadia que Deus deu ao Monge Lutero. Precisamos de outra Reforma.

è  Falsas predições escatológicas dentro do Anabatismo

Já vimos que Münster foi palco de uma falsa profecia sobre a Nova Jerusalém. No entanto, Hans Hut , ex-discípulo de Thomas Münster previu que Cristo retornaria no domingo de Pentecoste de 1528, então ele reuniu 144.000 santos e os selou, batizando-os com o sinal da cruz na testa, como a profecia não se cumpriu, o movimento se dividiu e foi então estabelecido que o Cristo voltaria em 1534 em Estrasburgo, e , novamente a profecia falhou e foi aí que foi dito que Münster sediaria a Nova Jerusalém. Hoffman, outro líder anabatista estava convencido de que era o Elias que restauraria todas as coisas de que Jesus falou, ele, porém ignorava o fato de os escritores inspirados “entenderam que Jesus lhes falava de João Batista”. Depois, outro discípulo de Hoffman declarou ser Enoque. Foram eles que mudaram a ‘Nova Jerusalém’ de Estrasburgo para Münster.

Jan Leyden, um dos discípulos de Hofmann declarou-se “rei de Justiça sobre todos” e legalizou a poligamia no estilo do Antigo Testamento. Sem contar o fato que um de seus antecessores, chamado Jan Mathijs ungiu doze apóstolos, dos quais Jan Leyden era um.

Houve um homem chamado David Joris que se conclamou o Davi escatológico descrito pelos profetas.

A própria data da Reforma, tem sido atacada com o Halloween que é um sincretismo religioso em homenagem aos mortos e aos deuses. A tradição desse fenômeno diz que ele surgiu com o objetivo de aplacar a fúria dos deuses e era comemorado no ultimo dia do ano para os celtas, povo onde se originou tal costume. É válido perceber que Halloween tem um toque demoníaco e sombrio. Que hoje, nossos amigos leitores, possam comemorar a redescoberta do Evangelho em Wittenberg ainda em 1517 e não o Halloween.


Para concluirmos esse artigo gostaria de analisar a relevância que a Reforma tem atualmente, vamos lá:

1.    Estamos vivendo dias semelhantes aos dias da Reforma.

Ao contrário das Indulgencias, hoje há “rosas ungidas, toalhas ungidas, atos proféticos, arca da Aliança” etc. O povo está descontente com os sacerdotes de hoje. Há ‘pastores’ que apoiam o aborto, algo contrário do ensino da Escritura. Precisamos de uma volta urgente aos princípios ensinados pela Reforma. Há a Teologia da Prosperidade em ampla divulgação, a um misticismo exagerado... Recordemo-nos dos princípios norteadores da Reforma...

2.    O protestantismo trouxe muitos avanços
Calvino foi quem estabeleceu a primeira escola pública em Genebra, foi o protestantismo que trouxe a igualdade de direitos entre as pessoas, pois deu valor à vida de deficientes e trouxe ainda liberdade cúltica. Calvino estabeleceu também um hospital público em Genebra.

3.    A Reforma deu acesso à liberdade de pensamento
O Índex proibia a leitura de livros que incitava a pesquisa, no entanto, Os reformadores a estimulavam e quando possível traduziam para o idioma comum do povo.

Que nos alegremos com a Reforma e que continuemos o seu legado! Nos dizeres do pastor e teólogo holandês Gisbertus Voetius (1589-1676) criou mais ou menos em 1618 a frase “Igreja Reformada sempre se reformando”. Que estejamos sempre tendo a mesma disposição de analisar tudo a luz da Escritura como os reformadores faziam.
Deus o abençoe!

* Reformadores Magisteriais seu movimento de reforma foi endossado, aliás oficializado, pelos magistrados, as autoridade civis (GEORGE, TIMOTHY: Teologia dos reformadores / Timothy George ; tradução Gérson Dudus e Valéria Fontana. — São Paulo : Vida Nova, 1993. 344p.

¹ Conforme livro "Mais uma pergunta, Dr Lutero... e também Conversas com Lutero".