segunda-feira, 20 de julho de 2015

A catolicidade da Igreja


O Credo Niceno-Constantinopolitano afirma: “Creio na Igreja. Una, Santa, Católica, Apostólica.”

Um credo é um resumo dos artigos essenciais da cristandade. O credo Niceno-Constantinopolitano surgiu em 381 AD para dirimir disputas acerca da Deidade do Espírito Santo entre os cristãos da época. Esse credo nos apresenta quatro sinais ou marcas da verdadeira Igreja e são eles: 1- Unicidade ou Unidade; 2- Santidade; 3- Apostolicidade; 4- Catolicidade.

Cada um destes apresenta-nos uma verdade acerca do Corpo Místico de Cristo – A Igreja. Por hora, detenhamo-nos no sinal da Catolicidade.

 Muitos Protestantes certamente estranharão o fato que a Igreja Protestante é, acima de tudo, Católica. Essa ligeira confusão se dá devido à má compreensão do termo ‘católico’. Este termo é uma transliteração do grego e significa simplesmente Universal. Essa expressão aparece no vocabulário cristão desde 450 AD. Por ‘católica’, queremos dizer que a igreja é ‘universal no tempo e no espaço’. A igreja que ‘abrange o todo’, devido sua abertura a todas as classes de pessoas de todos os lugares. A igreja que existe além das barreiras de idioma, etnia, cultura e nacionalidade. Portanto, trata-se da igreja que é espiritual, mística e invisível, contudo, de forma alguma etérea ou ilusória. Não se trata do ramo Romano da Cristandade, trata-se antes, do corpo místico de Cristo que engloba todos os fiéis que já morreram, que estão vivos, os que ainda hão de nascer.

Ao dizermos que a igreja é católica, dizemos que estamos todos interligados uns aos outros, de modo que tudo o que ela faz pertence a todos. Quando a igreja batiza uma criança, isso me afeta, pois aquela criança está desde então, relacionada com a cabeça que é minha cabeça, incorporada a um corpo do qual também sou membro. E quando a igreja enterra um homem, isso me afeta, pois a humanidade toda é do mesmo Criador, e é uma coisa só [...] O homem não é uma ilha, bastando-se a si próprio; cada homem é um pedaço do continente, uma parte do todo. Um torrão levado pelas águas do mar significa perda para o continente, como significaria perda se desaparecesse um promontório, ou a sua propriedade, ou a do seu amigo; a morte de qualquer homem diminui meu próprio ser, pois faço também parte do gênero humano e acima de tudo, faço parte da Igreja.
A igreja é católica porque Jesus reconciliou o mundo na cruz (2Co. 5:19). A atividade do Espírito de Deus, por meio do Evangelho pregado pela igreja, não está limitado pelo tempo, nem pelo espaço ou cultura, pois para Deus não há brasileiros, argentinos, árabes, judeus, europeus, negros, asiáticos, pois Cristo é tudo em todos (Cl. 3:11). Se temos um só mestre e somos todos irmãos e irmãs (Mt. 23:8) e, se temos todos acesso ao Pai por meio do mesmo Espírito (Ef. 2:18), então a Igreja é Universal [Católica]. O seu limite vai até onde a atividade do Pai, do Cristo e do Espírito, por meio do Evangelho, podem ir.

Devemos nos lembrar do que o famoso evangelista inglês do século XVIII, George Whitefield, afirmou num sermão:
‘Pai Abraão, quem está com você nos céus? Os episcopais? Não! Os presbiterianos? Não! Os independentes ou metodistas? Não, não, não! Quem está com você? Nós, aqui, não sabemos os seus nomes. Todos os que estão aqui são cristãos (...). É esse o caso? Então, Deus, nos ajude a esquecer do nome de grupos e nos tornarmos cristãos de verdade. ’

Isso certamente soa o que Martinho Lutero dizia: “A primeira coisa que peço é que as pessoas não façam uso de meu nome e não se chamem luteranas, mas cristãs. Que é Lutero? O ensino não é meu. Nem fui crucificado por ninguém. [...] Como eu, saco fétido de larvas que sou, cheguei ao ponto em que pessoas chamam aos filhos de Cristo por meu perverso nome”?

A catolicidade da igreja não é uma marca exclusiva do credo. Emana da Escritura, da Bíblia. Examinemos agora, alguns versículos:

1-) Hebreus 12:18,22-23

“Ora, não tendes chegado ao fogo palpável e ardente, e à escuridão, e à trevas, e à tempestade, mas tendes chegado ao monte Sião e à cidade do Deus vivo, a Jerusalém celestial, e a incontáveis hostes de anjos, e à universal assembleia e igreja dos primogênitos arrolados nos céus”...

2-) 1Coríntios 12:12,13

“Porque, assim como o corpo é um e tem muitos membros, e todos os membros, sendo muitos constituem um só corpo, assim também com respeito a Cristo. Pois, em um só Espírito, todos nós fomos batizados em um corpo, quer judeus, quer gregos, quer escravos, quer livres. E a todos nós foi dado beber de um só Espírito.”

3-) Efésios 4:4-6

“Há somente um corpo e um Espírito, como também fostes chamados numa só esperança da vossa vocação; há um só Senhor, uma só fé, um só batismo; um só Deus e Pai de todos, o qual é sobre todos age por meio de todos, e está em todos”

4-) Apocalipse 5:9-10

“E entoavam novo cântico, dizendo: Digno és de tomar o livro e de abrir-lhes os selos, porque foste morto e com o teu sangue compraste para Deus os que procedem de toda tribo, língua, povo e nação e para o nosso Deus os constituíste reino e sacerdotes; e reinarão sobre a terra”.

Não há nenhum indicio no Novo Testamento de um cristianismo de peregrino solitário, como não há nenhuma sugestão de que alguém pode ser virtualmente unido com Cristo e espiritualmente distanciado da igreja. A igreja por ser católica (universal) não está dividida em níveis de excelência e iluminação espiritual, antes, todos tem o mesmo conhecimento e a mesma unção advinda de Deus e que trata-se do Espírito Santo (1Jo 2:20,27).

De acordo com Cipriano de Cartago, pai da Igreja no século III, ‘não pode possuir a veste de Cristo quem separa e divide a Igreja de Cristo’. Até mesmo Lutero, a quem muitas vezes se culpa de ter dividido a igreja, valorizou a unidade da verdadeira igreja cristã e defendeu a nova mudança de igreja “evangélica” como uma restauração da igreja, ao invés de um cisma ou uma divisão no seio da igreja.

As implicações práticas disto para nós são que ‘se um membro sofre, todos sofrem com ele’ (1Co 12:26); as perseguições que a igreja vem sofrendo no Oriente também nos afetam aqui. As heresias e inovações teológicas que tem surgido na Alemanha e nos EUA também têm contaminado os púlpitos, as cátedras de nossas igrejas aqui. As implicações práticas disto são que não podemos e tampouco devemos inovar o cristianismo. Devemos antes, recorrer a vasta produção dos Pais, dos Reformadores, dos Concílios; pois a ortodoxia está onde há submissão às Escrituras Sagradas e “acordo com os Pais e Concílios”, como escreveu Karl Barth em sua exposição do Credo. Outra implicação prática para nós nisto é o que Lutero chamou de 'sacerdócio de todos os cristãos'. Onde cada um, ministra ao outro no poder do Espírito, eliminando assim a ideia de que um padre, pastor, bispo ou pretenso apóstolo arrogue para si o título de sacerdote, pois hoje somos uma nação toda de sacerdotes (1Pe 2:9; Ap. 1:5; 5:10).

 Nesse sentido, precisamos ter em mente que “é na Igreja que a Bíblia é lida; é pela Igreja que a Bíblia é ouvida. Isso significa que ao ler a Bíblia, nós deveríamos ouvir também o que a Igreja tem até agora lido e ouvido da Bíblia. Deve ser guardado na memória que, como membro da Igreja não se deve falar antes de ter ouvido”. Pois como o poeta medieval Pedro de Blois afirmou somos anões espirituais e quando estudamos os escritos dos gigantes do passado nos colocamos sobre seus ombros, vendo mais longe. Uma sã teologia nunca nasce de novo. Ao honrar a sã tradição, se assegura a continuidade teológica com o passado. Ao mesmo tempo, a tradição cria a possibilidade de abrir novas portas para o futuro. Como diz o provérbio: ‘A tradição é o prólogo do futuro’.

Precisamos resgatar a catolicidade da igreja. O que os Pais escreveram e conforma-se com a Escritura não é patrimônio exclusivo dos católicos romanos, mas nosso também. O que os concílios ecumênicos pronunciaram e que está em conformidade com as Escrituras não é somente dos católicos romanos ou ortodoxos orientais, mas nosso também. Precisamos nos lembrar que ao perseguirem uma parte da Igreja na sua catolicidade, nos atingem aqui.  Lembrai-vos dos encarcerados, como se presos com eles; dos que sofrem maus tratos, como se, com efeito, vós mesmos em pessoa fôsseis maltratados (Hb 13:3).

A Igreja Protestante é Católica, porque assegura sua continuidade teológica honrando a tradição em submissão à Escritura.  A Igreja não nasce conosco e não morre conosco. Que possamos aprender a ouvir o que mentes brilhantes já abriram caminho e disseram sobre a Igreja e assim, evitarmos repetir os erros tão crassos que a história nos mostra. Que possamos olhar como os gigantes do passado foram relevantes para sua época e tomar para nós os princípios que os nortearam nessa empreitada. Que Deus nos ajude a resgatar a verdade bíblica e teológica da catolicidade da Igreja do Senhor Jesus Cristo.