segunda-feira, 10 de agosto de 2015

ACASO VERSUS DESÍGNIO DIVINO

 Os judeus, ao contrário dos seus vizinhos pagãos, não acreditavam em sorte, azar, acaso, acidente ou contingências. Eram os filisteus e não os israelitas que afirmavam que as coisas poderiam acontecer ao acaso (1Sm. 6:9). Para os judeus, Deus traçara planos para as nações e homens e o cumprimento desses planos era inevitável. Os propósitos divinos não poderiam ser frutados por homem nenhum (Jó 42:2; Pv. 19:21; Is. 14:27; 43:13; 46:10-11).
Os autores do Antigo Testamento sempre descreveram eventos aparentemente fortuitos como meios pelos quais Deus realizou seu propósito. Assim, o amalequita que vageava ao acaso no monte Gilboa foi aquele que encontrou e matou o agonizante Saul , cumprindo, assim, a determinação do Senhor de castigar o rei por ter consultado a médium (2Sm. 1:6-10; 1Cr. 10:13). Ao encontrar casualmente um leão, o homem de Deus foi atacado pelo animal e morreu, e a profecia lançada contra ele foi cumprida (1Rs 13:21-24). O arqueiro que atirou sua flecha ao acaso acabou atingindo o rei de Israel, e dessa forma, cumpriu-se a predição sobre a morte do monarca (2Cr. 18:33). A visita casual que Acazias fez a Jorão e o encontro fortuito com Jeú foram providências divinas para que Acazias fosse morto (2Cr. 22:7-9). A tempestade que atingiu o navio em que Jonas fugia para Társis não foi mera contingência, mas resultado da ação divina para que o profeta chegasse a Nínive (Jn. 1:4).
Para Jesus, até mesmo os aspectos mais insignificantes da vida, como o número de cabelos das nossas cabeças (Mt. 10:30) e, corriqueiras como a morte de pardais (v. 29) estão sob o controle da vontade de Deus. Jesus era capaz de profetizar coisas triviais como o local onde se encontrava a jumenta e o jumentinho (Mt 21:2), o fato de que Pedro acharia a moeda na boca de um peixe (Mt 17:27) ou que em determinado instante um homem entraria na cidade com um cântaro na cabeça (Lc 22:10).
Os discípulos de Jesus, autores do Novo Testamento, tinham exatamente essa noção que nada ocorre por acaso. Tudo o que dizia respeito a Cristo tinha sido minuciosamente determinado por Deus como, o local do seu nascimento (Mt 2:5-6), a fuga para o Egito (v 15), a mudança para Nazaré (v 23), os milagres (Mt 8:16-17), a traição (Jo 17:12), o sofrimento e morte na cruz (At 3:18), incluindo detalhes de crueldade com o que o trataram, como ingestão de vinagre (Jo 19:28-29), a destruição da túnica (v 24) e a perfuração do corpo por uma lança (vs 34-37). E não só os fatos relacionados com Jesus foram determinados por Deus, como também aqueles relacionados com o nascimento da Igreja como, por exemplo, a substituição de Judas (At 1:16-26), o dia de Pentecoste (At 2:14-17), a rejeição de Israel (At 13:40-46), a inclusão dos gentios na Igreja (At 15:15-20).
Os cristãos foram predestinados (Rm 8:29; Ef 1:5,11), escolhidos antes da fundação do mundo (Ef 1:4). Até mesmo o sofrimento que acontece por causa do Evangelho é visto como propósito do Pai (1Pe 3:17; 4:19). Os primeiros cristãos foram ensinados a reconhecer uma santa conspiração divina em tudo o que lhes aconteciam (Rm 8:28), a ponto de darem graças por tudo (1Ts. 5:18). Foram aconselhados a dizerem: "Se o Senhor quiser, [...] faremos isto ou aquilo" (Tg. 4:15).
Assim, está claro que a ideia que tudo o que acontece é mera contingência é fruto da mentalidade pagã e das religiões idólatras e também dos maniqueístas, gnósticos, ateus, agnósticos, especialmente os evolucionistas que defendem que tudo surgiu e acontece como combinação fortuita de tempo e acaso. Os verdadeiros cristãos, todavia, cantam o antigo hino: "Acaso para mim não haverá"...
Claro que tanto o Antigo e Novo Testamentos, responsabilizam o homem por cada escolhas suas, livremente movidas por suas inclinações e desejos e ao mesmo tempo ensina que Deus decretou de antemão tudo o que acontece.
Não nos enganemos. A discussão entre acaso versus planejamento não é uma disputa teológica entre cristãos arminianos e calvinistas, pois os arminianos e os calvinistas concordam que Deus tem um plano, que ele controla a história, que não existe acaso e que Ele conhece o futuro. Ambos aceitam a Bíblia como Palavra de Deus e querem se guiar por ela. O confronto, na verdade, é entre duas visões de mundo completamente antagônicas, a visão pagã e a visão bíblica, entre as religiões pagãs e a religião bíblica.
(Retirado de Polêmicas na Igreja, do Dr. Augustus Nicodemus Lopes)