terça-feira, 8 de novembro de 2016

Um fato a meu respeito é que eu tenho uma predileção pela teologia de Martinho Lutero; nesse artigo espero expor as razões que me levaram à essa predileção.

  1. Lutero é um ser-humano antes de qualquer coisa.
Lutero é um homem antes de teólogo. Ele teve altos e baixos, medo, ousadia e ira. O seu medo é revelado na experiência da tempestade em Stotternheim onde ele decidiu entrar no mosteiro dos eremitas agostinianos. Sua ousadia pode ser vista na dieta de Worms diante do imperador Carlos V, quando ele exclamou: Minha consciência é cativa à palavra de Deus; finalmente, sua ira é demonstrada na relação da revolta dos camponeses, dos escritos anti-semitas e contra o papado. 

Como homem, seu linguajar seria ofensivo para muitos atualmente. Certa feita, Lutero disse ao diabo que lhe lambesse o cu; em outra, disse que afugentou o diabo com um peido. Lutero chamava aqueles teólogos racionalistas de 'teólogos-porcos'.

Lutero possuía opiniões errôneas antes durante e depois da guinada reformatória. Antes da guinada reformatória, sua imagem de Deus e Cristo era desfocada. Deus era o Deus de ira; Lutero chegou a dizer que não conseguia amar a Deus que pune pecadores com o inferno, ele não o amava, antes o odiava. Cristo era um juiz vingativo e punitivo, quase tão semelhante ao diabo. Durante, Lutero condenou Ulrico Zuínglio pela sua posição concernente à Ceia, provocando assim a primeira cisão na Reforma. Depois, ele apoiou o massacre dos camponeses, se opôs aos judeus como enviados do Anticristo por não receberem o evangelho recém-descoberto. 

Lutero era um homem de extremos. Numa das edições das Conversas à Mesa ele retrata sua vida como uma 'uma constante luta contra a melancolia', Sua vida era cercada por momentos de ócio; numa determinada carta a Felipe Melancton, ele escreveu: "Você me exalta demais… Sua alta estima a meu respeito me envergonha e me tortura, visto que – infelizmente – assento-me aqui à vontade, endurecido e insensível – ai de mim! –, orando pouco, lamentando pouco pela igreja de Deus. Em resumo, eu deveria ter o espírito ardoroso, mas eu queimo na carne, lascívia, preguiça, no ócio, na sonolência. Já se passaram oito dias em que nada escrevi, não orei nem estudei; isso se deu em parte por causa das tentações da carne, e em parte porque sou torturado por outros encargos”. Sua vida era cercada de ousadia. Quando convocado à comparecer diante do imperador em Worms, ele exclamou: "Irei a Worms ainda que todos estejam contra mim e hajam lá demônios tanto quanto as telhas das casas".  Lutero inclusive reconhece numa conversa à mesa que ele não vivia o que pregava em certos momentos.

Lutero era um homem convicto. Lutero nasceu e morreu em Eisleben. Diante da iminência da morte, um de seus discípulos lhe indagou: "reverendo padre, morrerás confessando firmemente a doutrina que pregaste e ensinaste? Ao que Lutero respondeu: Já! (Isto é, sim, claro). Na dieta de Worms, ele exclamou: A menos que eu seja convencido pela razão pura e pelas Escrituras, não posso e não vou retratar-me, visto que os concílios têm errado tanto e se contradito tantas vezes. Estou preso às Escrituras que citei, não é certo e nem seguro ir contra a consciência, aqui estou, Deus me ajude". 

     2. Lutero é um teólogo paradoxal

Lutero trabalha em sua teologia conceitos que não conseguimos racionalizar. Conceitos como Comunicação de atributos entre as duas naturezas de Cristo, Deus oculto-revelado, Lei e Evangelho.

O conceito de comunicação de propriedades ou atributos (Communicatio Idiomatum) vem desde os pais da igreja com Gregório de Nissa. Significa que os atributos divinos de Cristo foram comunicados à sua humanidade e vice-versa. Graças à esse ensino, Lutero e os luteranos podem ensinar a presença real de Cristo na ceia. Cristo está em, com e sob o pão e vinho.

O conceito de Deus oculto e revelado vem de João Staupitz, superior da ordem agostiniana da Alemanha no séc. XVI, confessor de Lutero. O Deus oculto é aquele Deus que, segundo Lutero, age como se não se importasse e nem perguntasse por ti. O Deus oculto é, na visão de Lutero, parecidíssimo com o diabo. Ele não se deixa apreender na palavra, não se pode dirigir à súplica a ele.
O Deus revelado é o Deus Trino. Revelado por Cristo através do Espírito Santo. O Deus Pai que demonstra seu amor na criação, sustentando-nos com as criaturas, na redenção com a morte e ressurreição de Deus Filho Crucificado e na santificação com os carismas de Deus Espírito Santo. Lutero nunca resolveu esse conflito e nem eu espero resolvê-lo no presente artigo.

Lei e Evangelho -  Lutero foi incisivo sobre esse ponto; chegou a ensinar que o que distingue verdadeiros crentes dos falsos crentes é a correta distinção nesse sentido, ainda que nessa vida ninguém consiga distinguir com perfeição. Lei é, para ele, é a primeira palavra de Deus; a palavra que nos informa que não conseguimos fazer e porque não conseguimos cumpri-la é a palavra condenatória de Deus para nós. Lutero se opõe aos antinomianos com esse conceito de Lei. A Lei não é restrita ao Antigo Testamento, antes, está presente também no Novo Testamento.  Já o Evangelho, é última palavra de Deus para o homem, A palavra que informa que a despeito da incapacidade natural do homem, Cristo vem ao nosso encontro e nos é dado gratuitamente por Deus Pai como Salvador. É a boa nova de que em Cristo e em sua justiça todos os nossos pecados são tragados, a morte e o diabo vencidos. Há Evangelho tanto no Antigo Testamento quanto no Novo Testamento. O proto-evangelho (Gn 3:15) é um exemplo. Agostinho bispo de Hipona, chamou Isaías de o Quinto Evangelista. 

Lutero viveu entre tensões. Mesmo diante do amor revelado de Deus, tinha seus Anfechtungen. Os estudiosos de Lutero dizem que os luteranos de hoje encontram grande consolo ao ler sobre os Anfechtungen do reformador. Isso de certa forma cativou minha atenção. Hoje é inadmissível um cristão falar de suas lutas e crises espirituais. Lutero falava abertamente, inclusive ele queria ter escrito um livro somente sobre os anfechtungen, o que infelizmente não fez. 

      3. Lutero era cristocêntrico e cristológico

Quando ameaçado de morte, Lutero foi cercado pelos alemães e por eles protegido. Os alemães gritavam: "Lutero para sempre"! Lutero respondeu: "Lutero não, Cristo para sempre!".  Quando soube que os adeptos da reforma estavam sendo chamados de luteranos ou chamando a si mesmos de luteranos, exclamou: Peço que meu nome seja calado e que ninguém se chame luterano, senão cristão. Que é Lutero? Pois se a doutrina não é minha! Eu também não fui crucificado por ninguém.
Lutero ensinava o Solus Christus (Cristo Somente) como único e exclusivo caminho para o Pai (Jo 14:6; At. 4:12; 1Tm 2:5). 

Lutero aconselhava seus seguidores a olharem somente para o Cristo crucificado. Aprenda a conhecer a Cristo crucificado; a dizer-lhes: Senhor Jesus tu és minha justiça e eu teu pecado. Tu te tornaste o que não eras para que eu me tornasse o que eu não era. 

   4. Lutero era um teólogo de tradição 

Lutero foi acusado pelo cardeal Caetano de fundar uma nova igreja. Todavia, uma coisa justa a ser dita é que Lutero prezou pela tradição saudável da igreja; ele preservou os credos, a fórmula da Calcedônia, desenvolveu catecismos para crianças e pastores, preservou a liturgia não corrompida pelo papado. Ele esteve em contato com os pais da igreja, Os capadócios e Agostinho, especialmente.
Graças à leitura de Lutero, descobri uma riqueza da tradição da igreja antiga.

Por agora, essas são as razões que me vieram à mente. Posteriormente pode ocorrer que eu atualize esse escrito com outras razões 

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Reforma Protestante: Teologia de Martinho Lutero - Comemoração 499 anos.

499 anos de Reforma: A teologia de Lutero
Estamos às portas de comemorarmos quatrocentos e noventa e nove anos de Reforma e para tanto abordaremos nesse pequeno artigo o objetivo teológico de Martinho Lutero ao sustentar firme a causa reformatória.



Oswald Bayer, ministro luterano e estudioso de Lutero define o consolar consciências atemorizadas como um dos muitos objetivos da teologia reformatória de Martim Lutero[1]. Lutero viveu numa época em que a humanidade sentia ansiedade em relação ao destino e à morte, culpa e condenação e vazio e falta de sentido existencial espiritual[2].  O pavor da morte era tal que João Capistrano chegou a levar uma caveira para o púlpito e pregar sobre a iminência e força da morte. A situação era tão grave que no século XIV anunciou-se que se praticava canibalismo, tamanha era a crise agrária. Violavam-se túmulos para comer carnes dos mortos pelos pobres na Polônia e Silésia[3].

Nesse sentido o Lutero católico era filho de seu tempo. Ao regressar de Erfurt para casa quase foi atingido por um raio durante uma tempestade, por cuja causa vez voto monástico[4]. Nesse mosteiro agostiniano conheceu o superior da ordem geral da Alemanha: Johann Stauptiz, que instou para com ele, que durante suas crises com Deus pensasse nas feridas do dulcíssimo Salvador[5].

É nesse quadro que Lutero vai adquirindo, aos poucos, sua teologia. Ele mesmo diz: Não aprendi minha teologia toda de uma vez, mas tive de busca-la mais a fundo onde minhas tentações (Anfectungen) me levavam[6].

Lutero pôde falar tão fortemente à sua geração, por ter ele experimentado ter uma consciência consolada. De onde, pois, vem esse consolo que Martim Lutero objetivava transmitir com sua teologia?

1.     Escrituras

Lutero era Baccalaureus Biblius (Bacharelado em Bíblia ou professor de Bíblia) [7], principalmente do Antigo Testamento[8]. Desde o meu encontro com as Escrituras tenho desejado ardentemente que este livro esteja em todos os idiomas, em todas as mãos, ouvidos e corações de todos os homens![9] 

 O desejo de Lutero e dos reformadores em geral, era de que a Bíblia estivesse na mão do povo; que lhe fosse a SUA Escritura: Uma pessoa que deseja ser salva deve agir como se a Bíblia tivesse sido escrita exclusivamente para ela e não houvesse ninguém mais na face da terra[10]. Lutero clamava aos bispos e papa: Dá-me a Escritura, Escritura, Escritura! Ouvistes? Dá-me a Escritura![11]. Desejo, em primeiro, em segundo, em terceiro, que os apóstolos me sejam dados[12].

A Reforma não foi outra coisa senão um retornar às Escrituras[13]. A redescoberta da Reforma aconteceu por ocasião de Lutero estar lendo Romanos 1:17 e também Romanos 4:5[14]. Os partidários da Reforma foram conhecidos como pessoas que gravitavam dentro das Escrituras[15].

O aspecto consolador da teologia de Lutero vem, portanto, da própria Escritura. Nisso ele está concordando com Paulo[16]: Pois tudo quanto, outrora, foi escrito para o nosso ensino foi escrito, a fim de que, pela paciência e pela consolação das Escrituras, tenhamos esperança. O cristão autêntico é aquele que diante da tentação (Anfechtungen) compreende e experimenta quão justa, verdadeira, doce, agradável, poderosa, CONSOLADORA é a palavra de Deus[17].

2.     Promissão no Evangelho

Bayer nos informa que o elemento reformatório da teologia de Lutero é o conceito de promissão que ele havia defendido já em 1520 no escrito “Do cativeiro Babilônico da Igreja[18], no qual ele ataca o sistema sacramental da Igreja Romana[19]. Lutero disse: Deus jamais se relacionou com o ser humano de outra maneira nem se relaciona com o ser humano de outra maneira senão com a palavra da promissão. Inversamente, nós tampouco podemos relacionar com Deus senão pela fé na palavra de sua promissão[20]. Essa promissão é o Evangelho. Entender o evangelho é entender que Deus se importa conosco pessoalmente, entender que Cristo nos foi dado pessoalmente. Ouçamos Lutero: “O ponto principal do Evangelho é que antes de tomares Cristo como exemplo, o acolhas e o reconheças como dádiva e presente que foi dado a ti pessoalmente por Deus, ou seja, que ao vê-lo ou ouvi-lo fazer alguma coisa, não duvides de que ele, Cristo, com esse fazer e sofrer seja teu, e nisto não te fies menos do que se tu o tivesses feito, sim, como se tu fosses o próprio Cristo. Isso sim significa reconhecer corretamente o Evangelho, ou seja, a bondade exuberante de Deus, a qual nenhum profeta, nenhum apóstolo, nenhum anjo jamais pôde esgotar em palavras, nenhum coração jamais pôde assombrar-se e compreender o suficiente. Isso é pregar a fé cristã”[21].O anúncio do perdão dos pecados em nome de Cristo – Isso é o evangelho”[22].

Os estudiosos de Lutero entendem que o conceito de promissão refere-se a sentenças breves; do tipo: Eis que estarei convosco todos os dias até o fim do mundo (Mt 28:20) Tais sentenças são promissões, promessas[23]. Para Lutero, o evangelho são expressões, palavras e frases particulares que criam a realidade o que elas dizem. Frases como: ‘Teus pecados estão perdoados’ ou ‘Eu estarei com vocês’ criam o estado de coisas ao qual se referem. As palavras do evangelho são criadoras. Essa palavra é ‘externa’ porque é comunicado por algum outro que é externo a nós[24]. Essa promissão é rememorada no Batismo e na Ceia do Senhor.  Para Lutero, devemos nos aproximar de Deus confiando nessas promissões que criam o estado de coisas que mencionam: “A fé que torna puro e digno é somente aquela que não se apoia naquelas obras, mas na palavra completamente pura, confiável, e firme de Cristo que fala: Vinde a mim todos que estais cansados e sobrecarregados eu quero dar-vos alívio. Em suma: É na arrogação dessas palavras que devemos aproximar-nos e aqueles que se aproximam dessa maneira não passarão vergonha”[25]. É importante ressaltar aqui que o Evangelho é algo externo a nós, está na palavra física de Cristo – na Bíblia. Lutero disse: Se Deus disse algo, isso virá a se cumprir. Não devemos perguntar se é possível, mas se Deus o disse[26].

A que promissão Lutero se referia? Ao perdão de pecados. Pode se pensar em Romanos 3:25 dizendo: QUE PERDOA PECADOS. Em toda a Bíblia essa é a única sequencia de palavras que ele destaca por meio de maiúsculas e numa glosa à margem, designa o texto assim destacado como ‘a parte principal e o centro de toda essa epístola e de toda a Escritura[27]. Leia com grande ênfase estas palavras, “eu”, “por mim”, e acostume-se a aceitá-las e aplicá-las a você mesmo com uma fé segura. As palavras NOSSO, NÓS e POR NÓS deveriam ser escritas em letras douradas — o homem que não acredita nelas não é cristão[28].

Ao rememorarmos a Reforma que venhamos a nos lembrar de um dos objetivos de Lutero: Consolar consciências atemorizadas (1Ts.5:14). Consolo advindo da Palavra pregada em sua pureza e dos sacramentos (batismo e Ceia) corretamente administrados. Palavra que em nome do Senhor, por algum cristão, se nos anuncia o perdão de nossos pecados como promessa de Deus vinda até nós no Batismo, na Ceia e na Prédica Dominical.

Somos igreja reformada, sempre se reformando. Igreja que lembra sempre do princípio da justificação somente pela fé que é artigo pelo qual ele se mantém de pé ou cai. Uma igreja que já na sua oração (Pai Nosso) pede: “Perdoa nossos pecados” em coletividade e individualmente[29]. A mensagem de Lutero para nossos dias é que apesar de nós, temos um Deus perdoador.

Recusaram ouvir-te e não se lembraram das tuas maravilhas, que lhes fizeste; endureceram a sua cerviz e na sua rebelião levantaram um chefe, com o propósito de voltarem para a sua servidão no Egito. Porém tu, ó Deus perdoador, clemente e misericordioso, tardio em irar-te e grande em bondade, tu não os desamparaste (Neemias 9:17).

Tu lhes respondeste, ó SENHOR, nosso Deus; foste para eles Deus perdoador, ainda que tomando vingança dos seus feitos. (Salmo 99:8)

Deus abençoe a todos, Feliz Reforma Protestante!



[1] BAYER, Oswald Teologia de Martim Lutero: Uma atualização, São Leopoldo, Sinodal, 2007, p.VII
[2] GEORGE, Timothy Teologia dos reformadores, São Paulo, Vida Nova, 2013, p. 26
[3] Ibid., p.26-27
[4] OLSON, Roger E. História da teologia cristã: 2000 anos de tradição e reformas, São Paulo, Editora Vida Nova, 2001, p. 385.
[5] GEORGE, Timothy Teologia dos reformadores, São Paulo, Vida Nova, 2013, p. 65.
[6] Ibid,. p.62
[7] Ibid., p.57
[8] BAYER, Oswald Teologia de Martim Lutero: Uma atualização, São Leopoldo, Sinodal, 2007, p VII.
[9] APUD CESAR Elben Conversas com Lutero: História e pensamento, Viçosa, Ultimato, 2006, p. 30.
[10] MCDERMOTT Gerald R, Grandes teólogos: Uma síntese do pensamento teológico em 21 séculos de Igreja, São Paulo, Vida Nova, 2013 p. 88.
[11] LAWSON Steven J A heroica ousadia de Martinho Lutero São José dos Campos, SP, Fiel, 2013, p. 47.
[12] BAYER, Oswald Teologia de Martim Lutero: Uma atualização, São Leopoldo, Sinodal, 2007, p 61.
[13] FERREIRA, Franklin Servos de Deus: Espiritualidade e teologia na História da Igreja, São José dos Campos, SP, Fiel, 2014, p. 193.
[14] SANTOS, João Batista Ribeiro, Atlas de estudos bíblicos: Com a história do contexto religioso, 2ª Ed., São Paulo, Didática Paulista, 2011, p. 87.
[15] CANUTO, João S Os reformadores, Ourinhos, SP, Edições Cristãs, 2ª Ed. 1983, p. 36.
[16] Romanos 15:4
[17] BAYER, Oswald Teologia de Martim Lutero: Uma atualização, São Leopoldo, Sinodal, 2007, p 27.
[18] Ibid., p. 35
[19] EARLE, Cairns E. Cristianismo através dos séculos: Uma história da Igreja Cristã, 3ª Ed, São Paulo, Vida Nova, 2008, p. 262.
[20] BAYER, Oswald Teologia de Martim Lutero: Uma atualização, São Leopoldo, Sinodal, 2007, p 30.
[21] Ibid., p. 46 (adaptado)
[22] WOLF, Manfred Mais uma pergunta Dr. Lutero: Entrevista com o reformador São Leopoldo, Sinodal, 2011, p. 57.
[23] BAYER, Oswald Teologia de Martim Lutero: Uma atualização, São Leopoldo, Sinodal, 2007, p 37.
[24] HELMER, Christine (Org) Lutero: Um teólogo para os tempos modernos, São Leopoldo, Sinodal, 2013, p 225-226.
[25] BAYER, Oswald Teologia de Martim Lutero: Uma atualização, São Leopoldo, Siodal, 2007, p 5.
[26] [26] LAWSON Steven J A heroica ousadia de Martinho Lutero São José dos Campos, SP, Fiel, 2013, p. 46-47.
[27] BAYER, Oswald Teologia de Martim Lutero: Uma atualização, São Leopoldo, Sinodal, 2007, p 5.
[28] GEORGE, Timothy Teologia dos reformadores, São Paulo, Vida Nova, 2013, p. 61.
[29] Mateus 6:12

segunda-feira, 19 de setembro de 2016

O Império se torna cristão: Boa iniciativa?

O Império se torna cristão: Boa iniciativa?


É sabido que com Édito de Milão em 313 dC, a perseguição aos cristãos no Império Romano cessa. É Sabido também que durante o reinado de Teodósio I o cristianismo é oficialmente declarado religião do Império e 'quem quer que seguisse outra forma de culto receberia punição do Estado' (Earlie, p. 106) e com isso todos passaram a ser inclusos no rol de membros da Igreja. Hurlbut, em sua História da Igreja Cristã, registra resultados negativos e positivos para a Igreja com o fim da perseguição e oficialização do cristianismo como religião oficial (p. 86-94). Dentre os resultados negativos está justamente o fato de todos estarem dentro da igreja sem conversão, mas por conveniência.

Essa conveniência trouxe para dentro da Igreja homens inescrupulosos que buscaram somente vantagens, sejam cargos eclesiásticos ou posição política. Os costumes pagãos foram adotados na liturgia cristã, tornando a adoração cristã cheia da pomposidade que se viu na Igreja durante a Idade Média.

Desde então, a Igreja vem enfrentando o problema de ter números, mas não conversos. Esse problema resultou inclusive na corrupção de papas durante a Idade Média. Clérigos que ao findarem o sermão, iam direto para jogatina ou bares; outros que tinham duas mulheres ou mais. Todavia, esse problema não é exclusividade da Oficialização do Império, é recorrente desde o Novo Testamento.

Paulo diz que havia cristãos em Corinto (cidade da Grécia Antiga) que estavam em pecado escancarado e deveriam ser tratados (1Co. 5:1-13), outros que estavam litigando no tribunal (1Co. 6:1-11) e deveriam envergonhar-se disto. Na Igreja de Creta (uma ilha que ligava a Ásia e a Grécia), Paulo diz ter encontrado homens hereges que deveriam ser evitados (Tt. 3:10-11). Pedro diz que nas Igrejas na Ásia, haviam falsos mestres que serão julgados por Deus (2Pe 2:1-22).

É por causa de indivíduos não regenerados dentro da Igreja que Lutero fala da 'abscondidade' da Igreja. E chama-a de "simultaneamente justa e pecadora” à semelhança de cada cristão (BAYER, p. 200-203). Lutero e Calvino nutriam respeito pela Igreja. Concordando com Cipriano, bispo de Cartago (séc. III) chamam a Igreja de Mãe e Escola do cristão (GEORGE, p 236). Foi essa a razão, pela qual os reformadores fixaram as marcas da Igreja verdadeira (notae ecclesiae), que nos credos antigos são a santidade, unidade, apostolicidade e catolicidade (OLSON, p. 414) e, para eles, são, na tradição Luterana, o evangelho pregado em sua pureza e os sacramentos (batismo e ceia) corretamente administrados. Para Calvino, além destes, acrescenta-se o uso da disciplina (AQUINO, p.90) e para o Anglicanismo, o evangelho e sacramentos corretamente administrados, a disciplina fielmente exercida e a sucessão apostólica (AQUINO, p. 91).

Berkhof em sua Sistemática, afirma que uso das marcas (ou sinais) da Igreja são para evidenciar melhor quão próxima a igreja local se encontra da pureza do Novo Testamento (p. 572). O "Prefácio ao Apocalipse de João" escrito por Lutero em 1530, é consolador nesse sentido, ele diz: "Contanto que a palavra do evangelho permaneça pura entre nós e nós a amemos e a valorizemos, não duvidaremos que Cristo está conosco e entre nós, mesmo que as coisas andem muito mal" (BAYER, p 201). Assim como Cristo andava entre as sete igrejas do Apocalipse que também tinham seus problemas, assim o faz hoje.  

Sendo assim, a resposta a pergunta inicial depende do olho de quem o lê. Se olharmos só pela perspectiva da conversão conveniente, certamente foi um desastre. Se olharmos para o Deus que guia sua Noiva, certamente teremos que dizer: "Cristo está conosco e entre nós, mesmo que as coisas andem muito mal", pois foram épocas de maiores desastres que Deus usou para promover os avivamentos.  

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HURBULT, J. L. – História da Igreja Cristã, 1ªEd. Atual. e Rev. Trad. João Batista; Vida Nova, SP, 2007.

CAIRNS, Earlie – História do Cristianismo através  dos séculos: Uma história da Igreja Cristã, trad. Israel Belo de Azevedo, 3ª Ed. rev. e ampl.  São Paulo, Vida Nova, 2008

BAYER, Oswald – A teologia de Martim Lutero: Uma atualização, trad. Nélio Schneider, São Leopoldo, Sinodal, 2007.

GEORGE, Timothy – Teologia dos reformadores trad. Gérson Dudus e Valéria Fontana, São Paulo, Vida Nova 1993.

OLSON, Roger E. História das controvérsias na teologia cristã: 2000 anos de unidade e diversidade trad. Werner Fuchs, São Paulo, Editora Vida, 2004.

AQUINO, Rodrigo Bibo (org.) Mosaico Teológico: Um esboço de doutrinas cristãs vol. 1 Joinville, BTBooks, 2013.


BERKHOF, Louis (1873-1957) Teologia Sistemática trad. Odayr Olivetti, 4ª ed. rev. São Paulo, Cultura Cristã, 2012.

sábado, 10 de setembro de 2016


Fuja da hiperespiritualidade!


Os “hiperespirituais” são um fenômeno comum em círculos cristãos. São pessoas tão santas e irrepreensíveis, que fazem as demais sentirem-se lixo jogado na rua ao lado delas. Transmitem tamanho ar de superioridade espiritual, que todos temem que elas possam, com apenas um olhar, identificar todos os seus pecados. Não pecam, e talvez nunca tenham pecado. Oram o tempo todo e sabem as Escrituras de trás para frente. São as primeiras a se colocarem em pé para orar. Estão sempre com as mãos e os olhos erguidos aos céus. Não tem nada do que se arrepender. Nunca tiveram dúvidas a respeito de sua própria fé. O texto “ajuda-me na minha falta de fé” não faz sentido para elas, pois sua fé é tamanha que não mudaria apenas um monte, mas um continente de lugar.

É óbvio que estou usando de sarcasmo para fazer uma caricatura. Não há no mundo pessoa que possua tais atributos. O que há, são os que ostentam orgulhosamente essa falsa hiperespiritualidade. Na verdade, somos tentados a parecer hiperespirituais para os outros, assim como os fariseus, que olhavam de cima para baixo para os publicanos, por exemplo (Lc 18. 9-14). Às vezes esquecemos da nossa condição miserável. Esquecemos que nossa fé é fraca, e que o desespero nos atinge com frequência. Gostaríamos que a vida cristã fosse simples, tipo "preto e branco", mas ela assume uma variedade de tons de cinza desagradável. Se formos realmente honestos, quem não se sente reprovado?

Outra tentação é olhar para o passado e pensarmos nos personagens históricos como pessoas sem pecado, quase tão puras quanto os anjos. Isso é um grande equívoco. O apóstolo Paulo, por exemplo, considerava-se o principal dos pecadores (1Tm 1.15), alguém que enfrentava constante luta com seus pecados (Rm 7.15-24). Quem nunca ouviu a história que Martinho Lutero orava três horas antes de iniciar seus trabalhos nos dias atarefados? Pensamos “que homem santo, não chego aos seus pés”. No entanto, em uma carta real de Lutero ao seu amigo Felipe Melanchthon ele escreveu: “Você me exalta demais… Sua alta estima a meu respeito me envergonha e me tortura, visto que – infelizmente – assento-me aqui à vontade, endurecido e insensível – ai de mim! –, orando pouco, lamentando pouco pela igreja de Deus. Em resumo, eu deveria ter o espírito ardoroso, mas eu queimo na carne, lascívia, preguiça, no ócio, na sonolência. Já se passaram oito dias em que nada escrevi, não orei nem estudei; isso se deu em parte por causa das tentações da carne, e em parte porque sou torturado por outros encargos” (Lutero apud REEVES, 2016, posição 106, Kindle Edition).

hiperespiritualidade é enganosa e alimenta uma autossuficiência condenada pelo Cristo que veio para os pecadores e não para os justos (Lc 5.29-32). Quando sustentamos uma posição que não é a nossa, deixamos de desfrutar do perdão gracioso e do amor incondicional de Deus. Michael Reeves diz que à medida que crescemos como cristãos, não devemos nos sentir mais autossuficientes, e sim mais necessitados. A vida cristã deve ser uma antítese à autodependência. Se formos sinceros, Deus nos receberá, nos perdoará os pecados e nos purificará de toda injustiça (1Jo 1.9), pelos méritos de seu Filho Jesus. Por isso, fuja da hiperespiritualidade!

“Desventurado homem que sou! Quem me livrará do corpo desta morte? Graças a Deus por Jesus Cristo nosso Senhor!” (Romanos 7.24-25).

Fonte:http://www.diarioreformado.com/single-post/2016/09/07/Fuja-da-hiperespiritualidade

terça-feira, 30 de agosto de 2016

confissões de um ‘teólogo cansado’

Eu não estou bem certo de que escrever as confissões de um ‘teólogo cansado’ será de alguma utilidade para alguém e muito menos seguro de que é correto fazê-lo. Mas o farei, pois poderá ser que alguém também se identifique.

Eu estou cansado de ser teólogo. Eu li bastante a Bíblia nesses anos de convertido, e não digo isso para orgulho, e isso me fez ‘azedo’ quando notei, na minha denominação, que pessoas que a liam menos que eu eram mais descolados.  Eu era bastante solicitado para orar, para pregar, para viajar, principalmente quando se precisava de alguém ‘de Deus’, um ‘bom conhecedor da Palavra e que tenha intimidade com o Pai’. Confesso, minhas interações eram bem pequenas, dado que o assunto que eu sabia bem era o assunto das Escrituras e quase ninguém sabia ‘desenrolar’ comigo o assunto. Por essa razão fui arrastado para a pregação leiga.


Eu estou cansado de ser teólogo. Chegou um momento na mocidade da igreja em que os homens começaram a orar a Deus por namoradas e eu não agi diferente; o problema comigo era que eu não tinha a ‘manha’ do mundo, eu cresci na igreja (me converti com 11 anos e batizei com 12) e então vi meus colegas arrumarem namoradas e eu não. Quando então eu alcancei uma namorada, dado os meus erros, ela fez o que achava certo que foi ter uma espécie de relacionamento com um cara que, para mim, era uma ‘pedra no sapato’ (bom, espero que ele e ela não leiam isso! Hehe). E esse ser ‘trocado’ me fez ter uma caricatura divina (que eu estou lidando até hoje, cinco anos depois). Deus deixou de ser o Pai amoroso e se tornou o Deus cruel. Na linguagem de Lutero, deixou de ser o Deus revelado e passou a ser o Deus oculto (Deum absconditus) e até hoje quando as coisas dão erradas para mim, eu tenho esse sentimento de ‘Deus cruel’, afinal de contas, ele não determina tudo segundo a sua vontade? (Efésios 1:11) e eu não consigo ver como isso vai cooperar juntamente para o meu bem (Romanos 8:28).

Não bastasse estar cansado de ser teólogo, estou cansado da igreja. Não sou desigrejado. Amo a noiva de Cristo. O problema é que quando eu pensei: ‘dessa vez vai’, apareceram fofoqueiros na igreja que falaram coisas de mim e de uma moça que eu realmente apreciava que me fez querer distanciar o máximo possível de qualquer contato com a igreja por um tempo. Contudo, eu tenho no coração o lema da cristandade: “A igreja é a tua mãe, ela te gera e nutre pela Palavra” (Lutero). “Não se pode ter Deus como Pai se não tiver a Igreja como mãe” (Cipriano de Cartago). E aos poucos estou retornando à comunhão com os santos como dantes.


Nesse ínterim, me apaixonei por uma amiga. Já tinha sofrido com a perda da primeira namorada e com a difamação a respeito da segunda moça. E agora, surge diante de mim uma terceira moça, muito linda por sinal. O que era para ser uma convivência de meio ano se tornou convivência de mais tempo. O problema, para mim, era que gostando dela eu a aconselhava amorosamente para se declarar para o cara que ela gostava e isso se repetiu mais uma vez, recentemente (na verdade, semana passada aconteceu esse segundo incidente. Espero que ela não leia também hehe).  O fato é que mais uma vez eu quebrei a cara, e conversando com ela sobre isso, ela sente o mesmo que eu nesses assuntos. Se eu fosse Lutero, gostaria que ela fosse minha ‘querida Kate’.

Com isso tudo acontecendo e sendo deficiente físico (eu tenho Paralisia Cerebral, mas só encurtou os tendões das pernas e que se lasque o termo ‘especial’), eu me indago sempre o porquê das coisas a Deus. Com as muitas leituras bíblicas, eu sempre esperei uma resposta miraculosa de Deus que nunca veio e descobri depois por que. Simplesmente por ter cessado esse meio e hoje ele age por providência. E essa ausência de resposta miraculosa me levou à depressão espiritual. Foi bom para mim, como diria o salmista. Eu era intolerante e achava depressivos ‘menos espirituais’. Achava até passar por isso também. Essa depressão me fez buscar uma teologia mais sólida e aí conheci o que é comumente chamado de ‘Calvinismo’. Problema à vista. A referida igreja é arminiana, neopentecostal e arroga ter apóstolos. Distanciei das pregações, por conflito doutrinário, não que eu fui expulso, foi uma decisão minha mesmo. Nesse intervalo, tenho feito seminário, coloquei a estudar a história da igreja (e por sinal eu estou me graduando em história). Me fascinei por Lutero, afinal, ele sofria de depressão (quem diria hein, Lutero?) e dá-lhe Lutero. (até hoje tenho influências luteranas, inclusive, encomendei mais um livro da Sinodal, ontem 29/08).

Com esse prospecto em mente, você me encontra hoje. Cansado de tentar crer. Ciente de que a fé é dom de Deus (Efésios 2:8-9). E como Lutero diz uma resposta do coração crente à voz vivificante de Deus. Mas agora, estou ciente de que não preciso disfarçar para Deus como eu pensava antes, eu lembrei que ele sabe tudo, antes que a palavra me chegue à boca (Salmo 139). Ciente de que a minha fé é menor que eu julgava. Como C. S. Lewis dizia que Deus já conhecia a espécie de minha fé era eu que não a conhecia. Ora, ele não é o autor da fé (Hebreus 12:2)? Como ele poderia não saber do tamanho dela? Hoje, uma oração mais apreciada por mim na Escritura é do pai do menino lunático: “Ajuda-me na minha incredulidade” (Marcos 9:24).

Se você me encontrar e perguntar: “Crês que Deus pode fazer algo na sua vida amorosa?” Responderei: “Não sei se ele o quer fazer”. Poder ele pode. Querer é outra coisa, não é? Isso me levou à uma fraca concepção de orações respondidas. Eu estou lutando para crer que ele responde orações, afinal, as Escrituras dizem que sim e as Escrituras não podem falhar (João 10:34-35).

À essa altura, você deve estar se perguntando, se eu não estou em crise. Respondo que não. Porque agora eu conheço melhor as minhas fragilidades e entendo que “aquele que começou a boa obra é o mesmo que terminá-la-á. (Filipenses 1:6). Ele me deu fé quando não tinha, me reconciliou quando inimigo (Romanos 5:8-11), me adotou quando estranho (Efésios 2:11-19).  Bom, ele é fiel e ele fará (1Tessalonicenses 5:24). Confio nele que o mesmo que me deu a fé, nutri-la-á.  Sou teólogo e não deixarei de sê-lo. Fui chamado por Deus e ele me susterá.  Há muito que se admirar na persistência de irmãos em situações como essas e no Salvador que nos cuida. Ele é o mesmo. Ele sustentou Moisés, Elias, Davi, Lutero, Spurgeon, sustenta a mim e a você. 


Se você leu até aqui e se identifica, deixe um comentário para que eu saiba. E o meu conselho para você: Insista! “Eia” como diria Josué e Calebe. “Há mais sete mil” como diria Elias. “Esses sofrimentos (idênticos) estão se cumprindo na Igreja ao redor do planeta”, diria Pedro (1Pedro 5:9). Não estamos sós na jornada. Charles Spurgeon tinha uma ideia que vale mencionar aqui. O caminhar cristão não é uma vacinação única que nos deixa imune, mas um acompanhamento terapêutico constante com o médico. Ele nos prometeu: “Nunca o deixarei e nunca o abandonarei”. “Estarei convosco até a consumação dos séculos” (Mateus 28:20; Hebreus 13:5).
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PS 01: Se algum de vocês for algum dos indivíduos mencionados aqui, saiba que eu os amo.
PS 02: Não estou escrevendo para ser imitado. Afinal, outra coisa que cansa é ouvir que não se pode fazer isso ou aquilo porque somos modelos. Estou escrevendo por ter vontade. Se quer fazer o mesmo faça, mas assuma a ideia e não diga que foi induzido por mim.
PS 03: Se você abandonou a Igreja, volte para ela. Já foi dito que ela é como a arca de Noé e que se não fosse as aguas lá fora, ninguém suportaria o fedor de dentro. Não existe a ideia de cristianismo solitário antes do século 20. Paulo disse: “Somos corpo de Cristo e individualmente membros desse corpo” (1Coríntios 12:27).