sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Reforma Protestante: Teologia de Martinho Lutero - Comemoração 499 anos.

499 anos de Reforma: A teologia de Lutero
Estamos às portas de comemorarmos quatrocentos e noventa e nove anos de Reforma e para tanto abordaremos nesse pequeno artigo o objetivo teológico de Martinho Lutero ao sustentar firme a causa reformatória.



Oswald Bayer, ministro luterano e estudioso de Lutero define o consolar consciências atemorizadas como um dos muitos objetivos da teologia reformatória de Martim Lutero[1]. Lutero viveu numa época em que a humanidade sentia ansiedade em relação ao destino e à morte, culpa e condenação e vazio e falta de sentido existencial espiritual[2].  O pavor da morte era tal que João Capistrano chegou a levar uma caveira para o púlpito e pregar sobre a iminência e força da morte. A situação era tão grave que no século XIV anunciou-se que se praticava canibalismo, tamanha era a crise agrária. Violavam-se túmulos para comer carnes dos mortos pelos pobres na Polônia e Silésia[3].

Nesse sentido o Lutero católico era filho de seu tempo. Ao regressar de Erfurt para casa quase foi atingido por um raio durante uma tempestade, por cuja causa vez voto monástico[4]. Nesse mosteiro agostiniano conheceu o superior da ordem geral da Alemanha: Johann Stauptiz, que instou para com ele, que durante suas crises com Deus pensasse nas feridas do dulcíssimo Salvador[5].

É nesse quadro que Lutero vai adquirindo, aos poucos, sua teologia. Ele mesmo diz: Não aprendi minha teologia toda de uma vez, mas tive de busca-la mais a fundo onde minhas tentações (Anfectungen) me levavam[6].

Lutero pôde falar tão fortemente à sua geração, por ter ele experimentado ter uma consciência consolada. De onde, pois, vem esse consolo que Martim Lutero objetivava transmitir com sua teologia?

1.     Escrituras

Lutero era Baccalaureus Biblius (Bacharelado em Bíblia ou professor de Bíblia) [7], principalmente do Antigo Testamento[8]. Desde o meu encontro com as Escrituras tenho desejado ardentemente que este livro esteja em todos os idiomas, em todas as mãos, ouvidos e corações de todos os homens![9] 

 O desejo de Lutero e dos reformadores em geral, era de que a Bíblia estivesse na mão do povo; que lhe fosse a SUA Escritura: Uma pessoa que deseja ser salva deve agir como se a Bíblia tivesse sido escrita exclusivamente para ela e não houvesse ninguém mais na face da terra[10]. Lutero clamava aos bispos e papa: Dá-me a Escritura, Escritura, Escritura! Ouvistes? Dá-me a Escritura![11]. Desejo, em primeiro, em segundo, em terceiro, que os apóstolos me sejam dados[12].

A Reforma não foi outra coisa senão um retornar às Escrituras[13]. A redescoberta da Reforma aconteceu por ocasião de Lutero estar lendo Romanos 1:17 e também Romanos 4:5[14]. Os partidários da Reforma foram conhecidos como pessoas que gravitavam dentro das Escrituras[15].

O aspecto consolador da teologia de Lutero vem, portanto, da própria Escritura. Nisso ele está concordando com Paulo[16]: Pois tudo quanto, outrora, foi escrito para o nosso ensino foi escrito, a fim de que, pela paciência e pela consolação das Escrituras, tenhamos esperança. O cristão autêntico é aquele que diante da tentação (Anfechtungen) compreende e experimenta quão justa, verdadeira, doce, agradável, poderosa, CONSOLADORA é a palavra de Deus[17].

2.     Promissão no Evangelho

Bayer nos informa que o elemento reformatório da teologia de Lutero é o conceito de promissão que ele havia defendido já em 1520 no escrito “Do cativeiro Babilônico da Igreja[18], no qual ele ataca o sistema sacramental da Igreja Romana[19]. Lutero disse: Deus jamais se relacionou com o ser humano de outra maneira nem se relaciona com o ser humano de outra maneira senão com a palavra da promissão. Inversamente, nós tampouco podemos relacionar com Deus senão pela fé na palavra de sua promissão[20]. Essa promissão é o Evangelho. Entender o evangelho é entender que Deus se importa conosco pessoalmente, entender que Cristo nos foi dado pessoalmente. Ouçamos Lutero: “O ponto principal do Evangelho é que antes de tomares Cristo como exemplo, o acolhas e o reconheças como dádiva e presente que foi dado a ti pessoalmente por Deus, ou seja, que ao vê-lo ou ouvi-lo fazer alguma coisa, não duvides de que ele, Cristo, com esse fazer e sofrer seja teu, e nisto não te fies menos do que se tu o tivesses feito, sim, como se tu fosses o próprio Cristo. Isso sim significa reconhecer corretamente o Evangelho, ou seja, a bondade exuberante de Deus, a qual nenhum profeta, nenhum apóstolo, nenhum anjo jamais pôde esgotar em palavras, nenhum coração jamais pôde assombrar-se e compreender o suficiente. Isso é pregar a fé cristã”[21].O anúncio do perdão dos pecados em nome de Cristo – Isso é o evangelho”[22].

Os estudiosos de Lutero entendem que o conceito de promissão refere-se a sentenças breves; do tipo: Eis que estarei convosco todos os dias até o fim do mundo (Mt 28:20) Tais sentenças são promissões, promessas[23]. Para Lutero, o evangelho são expressões, palavras e frases particulares que criam a realidade o que elas dizem. Frases como: ‘Teus pecados estão perdoados’ ou ‘Eu estarei com vocês’ criam o estado de coisas ao qual se referem. As palavras do evangelho são criadoras. Essa palavra é ‘externa’ porque é comunicado por algum outro que é externo a nós[24]. Essa promissão é rememorada no Batismo e na Ceia do Senhor.  Para Lutero, devemos nos aproximar de Deus confiando nessas promissões que criam o estado de coisas que mencionam: “A fé que torna puro e digno é somente aquela que não se apoia naquelas obras, mas na palavra completamente pura, confiável, e firme de Cristo que fala: Vinde a mim todos que estais cansados e sobrecarregados eu quero dar-vos alívio. Em suma: É na arrogação dessas palavras que devemos aproximar-nos e aqueles que se aproximam dessa maneira não passarão vergonha”[25]. É importante ressaltar aqui que o Evangelho é algo externo a nós, está na palavra física de Cristo – na Bíblia. Lutero disse: Se Deus disse algo, isso virá a se cumprir. Não devemos perguntar se é possível, mas se Deus o disse[26].

A que promissão Lutero se referia? Ao perdão de pecados. Pode se pensar em Romanos 3:25 dizendo: QUE PERDOA PECADOS. Em toda a Bíblia essa é a única sequencia de palavras que ele destaca por meio de maiúsculas e numa glosa à margem, designa o texto assim destacado como ‘a parte principal e o centro de toda essa epístola e de toda a Escritura[27]. Leia com grande ênfase estas palavras, “eu”, “por mim”, e acostume-se a aceitá-las e aplicá-las a você mesmo com uma fé segura. As palavras NOSSO, NÓS e POR NÓS deveriam ser escritas em letras douradas — o homem que não acredita nelas não é cristão[28].

Ao rememorarmos a Reforma que venhamos a nos lembrar de um dos objetivos de Lutero: Consolar consciências atemorizadas (1Ts.5:14). Consolo advindo da Palavra pregada em sua pureza e dos sacramentos (batismo e Ceia) corretamente administrados. Palavra que em nome do Senhor, por algum cristão, se nos anuncia o perdão de nossos pecados como promessa de Deus vinda até nós no Batismo, na Ceia e na Prédica Dominical.

Somos igreja reformada, sempre se reformando. Igreja que lembra sempre do princípio da justificação somente pela fé que é artigo pelo qual ele se mantém de pé ou cai. Uma igreja que já na sua oração (Pai Nosso) pede: “Perdoa nossos pecados” em coletividade e individualmente[29]. A mensagem de Lutero para nossos dias é que apesar de nós, temos um Deus perdoador.

Recusaram ouvir-te e não se lembraram das tuas maravilhas, que lhes fizeste; endureceram a sua cerviz e na sua rebelião levantaram um chefe, com o propósito de voltarem para a sua servidão no Egito. Porém tu, ó Deus perdoador, clemente e misericordioso, tardio em irar-te e grande em bondade, tu não os desamparaste (Neemias 9:17).

Tu lhes respondeste, ó SENHOR, nosso Deus; foste para eles Deus perdoador, ainda que tomando vingança dos seus feitos. (Salmo 99:8)

Deus abençoe a todos, Feliz Reforma Protestante!



[1] BAYER, Oswald Teologia de Martim Lutero: Uma atualização, São Leopoldo, Sinodal, 2007, p.VII
[2] GEORGE, Timothy Teologia dos reformadores, São Paulo, Vida Nova, 2013, p. 26
[3] Ibid., p.26-27
[4] OLSON, Roger E. História da teologia cristã: 2000 anos de tradição e reformas, São Paulo, Editora Vida Nova, 2001, p. 385.
[5] GEORGE, Timothy Teologia dos reformadores, São Paulo, Vida Nova, 2013, p. 65.
[6] Ibid,. p.62
[7] Ibid., p.57
[8] BAYER, Oswald Teologia de Martim Lutero: Uma atualização, São Leopoldo, Sinodal, 2007, p VII.
[9] APUD CESAR Elben Conversas com Lutero: História e pensamento, Viçosa, Ultimato, 2006, p. 30.
[10] MCDERMOTT Gerald R, Grandes teólogos: Uma síntese do pensamento teológico em 21 séculos de Igreja, São Paulo, Vida Nova, 2013 p. 88.
[11] LAWSON Steven J A heroica ousadia de Martinho Lutero São José dos Campos, SP, Fiel, 2013, p. 47.
[12] BAYER, Oswald Teologia de Martim Lutero: Uma atualização, São Leopoldo, Sinodal, 2007, p 61.
[13] FERREIRA, Franklin Servos de Deus: Espiritualidade e teologia na História da Igreja, São José dos Campos, SP, Fiel, 2014, p. 193.
[14] SANTOS, João Batista Ribeiro, Atlas de estudos bíblicos: Com a história do contexto religioso, 2ª Ed., São Paulo, Didática Paulista, 2011, p. 87.
[15] CANUTO, João S Os reformadores, Ourinhos, SP, Edições Cristãs, 2ª Ed. 1983, p. 36.
[16] Romanos 15:4
[17] BAYER, Oswald Teologia de Martim Lutero: Uma atualização, São Leopoldo, Sinodal, 2007, p 27.
[18] Ibid., p. 35
[19] EARLE, Cairns E. Cristianismo através dos séculos: Uma história da Igreja Cristã, 3ª Ed, São Paulo, Vida Nova, 2008, p. 262.
[20] BAYER, Oswald Teologia de Martim Lutero: Uma atualização, São Leopoldo, Sinodal, 2007, p 30.
[21] Ibid., p. 46 (adaptado)
[22] WOLF, Manfred Mais uma pergunta Dr. Lutero: Entrevista com o reformador São Leopoldo, Sinodal, 2011, p. 57.
[23] BAYER, Oswald Teologia de Martim Lutero: Uma atualização, São Leopoldo, Sinodal, 2007, p 37.
[24] HELMER, Christine (Org) Lutero: Um teólogo para os tempos modernos, São Leopoldo, Sinodal, 2013, p 225-226.
[25] BAYER, Oswald Teologia de Martim Lutero: Uma atualização, São Leopoldo, Siodal, 2007, p 5.
[26] [26] LAWSON Steven J A heroica ousadia de Martinho Lutero São José dos Campos, SP, Fiel, 2013, p. 46-47.
[27] BAYER, Oswald Teologia de Martim Lutero: Uma atualização, São Leopoldo, Sinodal, 2007, p 5.
[28] GEORGE, Timothy Teologia dos reformadores, São Paulo, Vida Nova, 2013, p. 61.
[29] Mateus 6:12