sábado, 1 de julho de 2017

Doutrina da Reprovação

A DOUTRINA DA REPROVAÇÃO



Dentro do estudo da doutrina da salvação, descobrimos que Deus, livre e soberanamente, elege alguns indivíduos para a salvação. Quando tratamos desse assunto, então, precisamos destacar que ao eleger alguns, Deus reprova outros.

O que vem a ser a reprovação? Segundo a Bíblia de Estudo de Genebra, Nota Teológica, página 1333, Reprovação é o nome dado à eterna decisão de Deus com relação àqueles pecadores que não foram escolhidos para a vida. Não os escolhendo para a vida, Deus determinou que eles não fossem transformados. Eles continuarão em pecado e, finalmente, serão julgados por aquilo que tiverem feito. Em alguns casos, Deus pode ir mais longe e remover as influências restritivas que protegem uma pessoa da desobediência extrema. Esse abandono, chamado de “endurecimento”, é, em si mesmo, uma penalidade do pecado (Rm 9:18; 11:25 conforme Sl 81:12; Rm 1:24,26,28).

Convém notar que ao ‘continuar em pecado’, eles agirão conforme a vontade do seu coração, que é continuamente mau (Gn. 6:5; 8:21) e extremamente corrupto (Jr. 17:10). O coração é, para usar a linguagem dos reformadores, uma fábrica de imagens e ídolos. De tal forma que nos eleitos, manifesta-se a misericórdia e a bondade de Deus e nos réprobos, a sua justiça (Rm. 11:22).

A reprovação é ensinada na Escritura não tanto com a ênfase da eleição. Algumas passagens: Isaías 8:14; Mateus 11:25,26; 21:42-44; Lucas 2:34,35; Romanos 9:13-24 2Coríntios 2:15,16; 1Pedro 2:6-8; Judas 4; Apocalipse 13:8; Provérbios. 16:4.

Wayne Grudem em sua Teologia Sistemática (p. 573-576) diz “A eleição para a salvação é vista como uma causa para regozijo e louvor a Deus, que é digno de louvor e recebe todo o crédito pela nossa salvação (veja Ef 1:3-6; 1Pe 1:1-3). Deus é visto como quem nos escolhe ativamente para salvação, o que Ele faz com amor e prazer. Mas a reprovação é vista como algo que traz tristeza a Deus, não deleite (veja Ez 33:11), e a responsabilidade pela condenação dos pecadores é sempre lançada sobre as pessoas ou anjos que se rebelam, nunca sobre o próprio Deus (veja Jo 3:18-19; 5:40)”. 

O próprio João Calvino disse com respeito à reprovação: “Decreto, certamente, horrível, confesso”. (Calvino, Institutas , 3.23.7); mas deve ser notado que sua palavra latina horribilis não significa “detestável” mas, antes, “pavoroso, que inspira terror”.

Os cânones de Dort (art. 15-18), a Confissão de Westminster (3.7) ensinam também a reprovação. Quando os cristãos falam de tal doutrina, geralmente a nomeiam como “dupla predestinação”. Lutero embora, segundo alguns, tenha enfatizado mais a predestinação que Calvino, não deu tanta atenção à doutrina da reprovação, conforme o Rev. Oswald Bayer na nota de rodapé 150 de seu livro "Teologia de Martim Lutero: Uma atualização".

O Rev. Ronald Hanko em sua Doutrina segundo a Piedade (p. 69-70) explica que a doutrina da reprovação tem, pelo menos, duas funções, que são: Demonstrar sua ira e seu poder nos réprobos e sua misericórdia nos eleitos (Romanos 9:22-23).

O Pr. Antônio Gilberto, na Teologia Sistemática Pentecostal (p. 366) traz um insight poderoso a esse respeito: "“Eleição” e “escolha” são apenas um termo, no original: ecloge. A eleição “olha” para o aspecto passado da nossa salvação (1Pe 1:2; Ef 1:4)". Embora o referido autor, por ser pentecostal, não endosse a doutrina da reprovação.

O Rev. João Ricardo Ferreira de França, ministro presbiteriano e professor no SPN (Seminário Presbiteriano do Norte), escreve em sua Introdução à Teologia Sistemática, oferecida pelo Centro de Estudos Presbiteriano (CEP) diz (p. 29ss): 

"Esta predestinação possui dois aspectos Eleição e Reprovação. Como é isso? Imagine uma moeda de duas faces (cara e coroa) a moeda seria a predestinação e as duas faces duas ações: Eleição e Reprovação.

A dupla predestinação abarca os seres morais criados por Deus a confissão de fé nos declara que existem: 

a) Anjos eleitos (2Timóteo 5:21) 
b) Anjos reprovados (Judas 6) 
c) Homens eleitos (Romanos 9:23; Efésios 1:3-5) 
d) Homens reprovados (Romanos 9:22)

Ele ainda elucida ainda mais o assunto ao escrever: "a manifestação ou a recusa de sua misericórdia tem como alvo a glória de seu soberano poder: Esta é a segunda verdade revelada na seção 7 da Confissão de Fé de Westminster: “como lhe apraz, para a glória do seu soberano poder sobre as suas criaturas” Deus tem todo o poder de realizar o que bem quiser com suas criaturas, pois, ele pode revelar sua a graça a uns e não a outros “Por aquele tempo, exclamou Jesus: Graças te dou, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque ocultaste estas coisas aos sábios e instruídos e as revelaste aos pequeninos. Sim, ó Pai, porque assim foi do teu agrado.” (Mateus 11:25-26)". 

O pastor presbiteriano vai além e nos diz (p. 32): A Reprovação tem como finalidade a condenação dos pecadores: Este é aspecto mais polêmico da doutrina da reprovação. A Confissão reconhece que o segundo propósito da reprovação é manifestar a condenação dos pecadores. Assim declara a Confissão de Fé de Westminster: “foi Deus servido não contemplar e ordená-los para a desonra e ira por causa dos seus pecados.” Deus não contempla os reprovados para serem alvos de sua ação misericordiosa. 

Comentando exegeticamente o texto de Judas 4, ele diz: Vejam aqui temos a tônica da reprovação. Estes homens foram “antecipadamente pronunciados” no grego temos o verbo “προγεγραμμενοι” – progegramenoi – que tem a ideia de algo que foi estabelecido antes que permanece assim e que não poderá ser alterado; eles foram postos para serem condenados – selados antecipadamente para esta condenação!

A Escritura demonstra alguns homens que foram destinados à serem réprobos. Judas 11, cita pelo menos, três deles: Caim, Balaão e Corá. Paulo, em Romanos 9, cita outro: O faraó (controvertido de quem seja) da época do êxodo. Podemos mencionar ainda outro réprobo: Saul (1Sm. 28:16).  Outros reprovados podem ser mencionados:  Himeneu e Fileto (2Tm 2:17), Hofni e Finéias (1Sm 2:25), Elimas (At. 13:8) e Janes e Jambres (2Tm. 3:8)

Baseado na vida destes homens podemos concluir que:

• Usufruir da graça comum não é sinal de eleição de Deus

Caim, ao peregrinar para Node, recebeu de Deus uma marca para protegê-lo da morte. Isso é a graça comum. Jesus, em Mateus 5, nos ensina que o Pai faz sua chuva cair sobre maus e bons e o seu sol se levantar sobre justos e injustos, sobre eleitos e réprobos. Graça comum não é sinal de eleição. A graça comum refreia a extrema depravação humana, mas não salva.

• Usufruir bençãos temporais não é sinônimo de eleição de Deus

Esaú se casou, teve família (Gn. 36:2), foi rico (Gn. 33:8), mas não foi salvo. Diz a Escritura em Romanos 9, que Deus odiou Esaú, isto é, ele tornou-se, ou conforme o grego, foi adaptado para ser um réprobo.

• Frequentar a igreja não é sinônimo de eleição divina

Hofni e Finéias eram filhos do sumo-sacerdote Eli. Descendentes de Arão. Cresceram no tabernáculo, cresceram lidando com o culto solene. Mas o veredito divino sobre eles eram: O SENHOR OS QUERIA MATAR! Corá era líder religioso em Israel e foi reprovado por Deus. Ir à igreja é uma atividade dos eleitos, mas não garante eleição. Claro, a Escritura ordena aos eleitos cultuar (Hb. 10:25) e também ensina que muitos anticristos saíram do meio da igreja (1Jo 2:18,19).

Himeneu e Fileto eram professores na igreja e ensinavam doutrinas espúrias, ao ponto de o apóstolo censurá-los em uma carta pastoral. Aqui, claro, cabe dizer que doutrina correta é necessária. Judas 3, ensina a igreja a lutar por preservar o corpo doutrinário sadio transmitido pelos apóstolos e pelos profetas. Janes e Jambres também foram reprovados apesar de terem cargos eclesiásticos.

• Ter cargo de autoridade não é sinônimo de eleição.

Faraó tinha autoridade sobre o Egito antigo,era o senhor daquelas terras, todavia não era eleito.

Diante da doutrina da reprovação, o apóstolo Pedro, em sua carta (2Pe 1:10) encoraja aos crentes a confirmarem sua eleição. Como, no entanto, fazê-lo?

1.  Para Lutero, a raiz da eleição está no Cristo crucificado e na Palavra externa/Sacramentos

"Se alguém está demasiadamente temeroso de que não é um eleito de Deus, ou se é tentado por causa de sua eleição, deve dar graças por esse temor e ficar contente por ter medo, pois pode saber com toda certeza que Deus não pode mentir, ele que disse: “Sacrifícios agradáveis a Deus são o espírito quebrantado”, isto é, o espírito desesperado. “Coração compungido e contrito não o desprezarás, ó Deus” (Salmo 51:17). Que está atemorizado, isso ele o sabe de experiência própria. Portanto, deve lançar-se resolutamente na veracidade de Deus que faz a promessa: deve esquecer, esquecer mesmo a ameaça de Deus, e então será salvo e eleito.

Quem ainda não tem o espírito purificado não deve entregar-se a esse tipo de meditação, para que não caia no abismo do terror e do desespero. Mas deve, antes, purificar seu coração pela contemplação das feridas de Cristo.

Este é um vinho bastante forte e a mais completa refeição, a comida pesada dos perfeitos, ou seja, teologia no sentido real da palavra, da qual o apóstolo fala em 1Coríntios 2:6: “Expomos sabedoria entre os experimentados”. Eu, porém, sou criança pequena que precisa de leite. Que siga meu exemplo aquele que, juntamente comigo, é criança pequena. Certeza suficiente temos nas feridas de Cristo". (Fonte)

A dogmática cristã publicada pela editora Concórdia (p. 273) diz: Afirmou Lutero: "Não devemos, como o fazem os sectários, imaginar que Deus nos conforte imediatamente, sem sua palavra. O conforto não nos vem sem a Palavra, que o Espírito Santo efetivamente traz à memória e acende em nossos corações, ainda que não tenha sido ouvida por dez anos."

Quando acossado por tentações, Lutero repetia a si mesmo: "Sou batizado". Para Lutero, Batismo é um rito para a vida toda. Para ele, toda vida cristã é um contínuo batismo; a razão disto é que para Lutero toda a vida cristã é um batismo diário.

2. Para João Calvino, a certeza da eleição, vem por meio da convicção do amor paterno de Deus mediante a Palavra externa

Nas Institutas da Religião Cristã (3.12.2), Calvino assevera que, conforme o ensino de Cristo e seus apóstolos, somente a fé dos eleitos é real (Mt. 15:13; Tt. 1:1). Razão pela qual Paulo requeria dos cristãos uma fé não fingida (1Tm 1:5). Um dos sinais da reprovação, segundo Calvino, é a ausência do sentimento paterno de Deus, ele diz: "Assim, por certo tempo vicejou em Saul um afeto piedoso para que amasse a Deus, de quem, reconhecendo ser tratado paternalmente, era tomado de algum dulçor de sua bondade. MAS, UMA VEZ QUE NOS RÉPROBOS NÃO SE ARRAIGA PROFUNDAMENTE A CONVICÇÃO DO PATERNO AMOR DE DEUS, NÃO O AMAM PLENAMENTE COMO FILHOS; PELO CONTRÁRIO, SÃO CONDUZIDOS POR CERTA DISPOSIÇÃO MERCENÁRIA. Ora, só a Cristo foi dado esse Espírito de amor, com esta condição: que o instile em seus membros; na verdade esta afirmação de Paulo não se estende para além dos eleitos: “Porquanto o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado” [Rm 5:5]; isto é, esse amor que gera aquela confiança de invocação que abordei acima [Gl 4:6]".

Aplicações 

1. Que Possamos, pela graça e ajuda de Deus, Pai, Filho, Espírito Santo, nos expormos e sermos expostos aos meios de graça (Palavra e Sacramentos) com fé, por eles não são ex opere operato. São, todavia, o meio que Deus institui para dar-nos o seu Espírito ainda que não exclusivamente.

2. Que a afirmação da Igreja possa ser, 'a todos quantos o receberam, deu-lhes o direito de se tornarem filhos de Deus, a saber aos que crêem no seu Nome" (Jo. 1:12). Não sejamos ecumênicos dizendo "Todos são filhos de Deus". Não, a Igreja é a comunidade dos filhos adotivos de Deus. Somos, como Paulo diz: "Família de Deus" (Ef. 2:19).

3. Spurgeon, ministro batista reformado do séc. 19, dizia que aquele que tivesse disposição de aproximar-se do Senhor desejoso de salvação era eleito. Deus dá a fé salvífica, ele é o autor da fé (Hb. 12:2), se, portanto, temos o desejo de aproximarmos do Senhor para recebermos dEle a fé, somos levados a crer na nossa eleição (At. 13:48).

Que Deus nos ajude! Que Deus nos faça guardados em Jesus pelo seu poder (Jd. 24; 1Pe. 1:5)

  Para a glória do Seu Nome.

sexta-feira, 16 de junho de 2017

Quem tem medo do Espírito Santo? - Daniel Wallace

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"Embora os carismáticos às vezes dê maior prioridade à experiência do que ao relacionamento, os evangélicos racionalistas dão maior prioridade ao conhecimento do que ao relacionamento. Ambos perderam o alvo. E Paulo em 1 Coríntios, condena ambos. O conhecimento incha; e a experiência espiritual sem amor é inútil. [...] Por mais chocante que possa parecer para muitos no círculo cessacionista, a Bíblia não é membro da Trindade. [...] o efeito líquido dessa bibliolatria é a despersonalização de Deus. Eventualmente, não nos relacionamos mais com Ele. Deus se torna o objeto de nossa investigação e não o Senhor a quem estamos sujeitos. A vitalidade de nossa religião é sugada. À medida que Deus é dissecado, nossa posição muda de "Eu confio em ..." para "Eu acredito que...” [...] Deus ainda é um Deus de cura, embora eu pense que seu meio normal não é através de um curandeiro de fé. Deus cura o exercício da fé, não pelo poder dos curadores da fé. O problema com alguns carismáticos é que eles acreditam que Deus não só pode curar, mas que ele deve curar. Deus torna-se assim um instrumento, exercido pelo cristão todo-poderoso. Ao mesmo tempo, o problema com os não-carismáticos é que, embora afirmemos que Deus pode curar, agimos como se não o fizesse. Eu realmente não penso em acreditar na habilidade de Deus - nós realmente não acreditamos que Deus possa curar. Assim, o problema com os carismáticos é a negação da soberania de Deus; O problema com os não-carismáticos é a negação da habilidade ou da bondade de Deus ou ambos. [...]
O racionalismo evangélico pode levar à deserção espiritual. Estou me referindo à sufocação do Espírito no treinamento teológico de pós-graduação, bem como à sedução da academia. A maioria dos professores de seminário pode pensar em exemplos de jovens estudantes talentosos que mentores, que parecem ter perdido toda a sua convicção cristã em um ambiente acadêmico. Para muitos de nós, essa lembrança é terrivelmente dolorosa. Quantas vezes enviamos Daniels para a guarida dos leões, apenas para dizer a eles por nossas ações que a oração não fará nada de bom?
[...] Não são apenas as evidências históricas que podem levar a abraçar a ressurreição como verdadeira. O Espírito deve trabalhar em nossos corações, superando nossa reticência natural. Quando nossos graduados continuam para o trabalho de doutorado, e esquecem que o Espírito os trouxe a Cristo em primeiro lugar, e suprimem seu testemunho em seus corações, eles estão aptos para a deserção espiritual. Precisamos lembrar - especialmente aqueles de nós que vivemos em um ambiente acadêmico - que a exegese e a apologética não são a soma da vida cristã.


[...] Algum tempo atrás, um dos meus alunos morreu de câncer. Outro estava prestes a morrer. Comecei a pedir aos alunos do seminário que orem pela intervenção de Deus. O Senhor não respondeu a nossa oração da maneira que esperávamos. Brendan também morreu. Minha própria dor aumentou quando vi seus três pequenos filhos desfilarem diante dos lamentadores em seu serviço memorial. Através das mortes, tragédias e sofrimentos que parecem ser "par para o curso" de ser cristão e parecem abundar Para a família do seminário, aprendi sobre o sofrimento e a honestidade com Deus. Perguntei a Deus e ainda o fiz. Fora da minha dor - dor para esses alunos e suas famílias, dor para meu filho, dor para mim mesmo - veio honestidade e crescimento. Tenho momentos em que duvido da bondade de Deus. No entanto, não duvido que tenha sofrido por mim muito mais do que jamais sofrerei por ele. E essa é a única razão pela qual eu o deixo segurar minha mão através deste vale escuro. Ao procurar o poder de Deus, eu descobri sua pessoa. Ele não é apenas onipotente; Ele também é o Deus de todo o conforto. E, levando-nos pelo sofrimento, não é um dos principais meios que o Espírito usa hoje para nos levar a Deus. (11) Finalmente, uma pergunta: para o que o Espírito testemunha? Certamente a ressurreição de Cristo. E as escrituras? Uma interpretação particular talvez? Problemas escatológicos? Problemas exegéticos? Não seja muito rápido para responder. Parte disso precisa repensar ... Na verdade, o desafio para cada um de nós é o seguinte: reexaminar o ensino do Novo Testamento sobre o Espírito Santo. Não examine as passagens, mas lute com o que elas significam. Se o Espírito não morreu no primeiro século, então, no mundo que ele está fazendo hoje? Em conclusão, para meus amigos carismáticos, eu digo: Não devemos evitar o sofrimento como se fosse necessariamente maligno, pois não podemos abraçar Cristo em Sua ressurreição além de abraçá-lo em sua morte. Para meus amigos cessantes: Não devemos anestesiar nossa dor enterrando nossas cabeças no texto, como se uma experiência semi-gnóstica da Bíblia resolva de algum modo o enigma de nossa miséria.

"Eu estava com raiva de Deus e eu achei que Ele estava bastante distante. Aqui estava esse menino precioso que estava perdendo o cabelo e perdendo peso. Em um ponto ele pesava apenas 45kg. Seu irmão gêmeo naquela época pesava 85kg. Andy estava tão fraco que tivemos que carregá-lo em todos os lugares, até ao banheiro. Através dessa experiência, descobri que a Bíblia não era suficiente. Eu precisava de Deus de maneira pessoal - não como um objeto do meu estudo, mas como amigo, guia, confortador. Eu precisava de uma experiência existencial do Santo. Francamente, descobri que a Bíblia não era a resposta. Eu achei que as Escrituras eram úteis - até mesmo de forma útil - como um guia. Mas sem sentir Deus, a Bíblia me deu pouca consolação. No meio deste "verão do inferno", comecei a examinar o que se tornou da minha fé. Eu achei um desejo de me aproximar de Deus, mas me achei incapaz de fazê-lo através dos meus meios normais: exegese, leitura das escrituras, mais exegese. Eu acredito que eu tinha despersonalizado tanto Deus que, quando eu realmente precisava dEle, eu não sabia como me relacionar. Eu desejei por ele, mas encontrei muitas restrições de toda a comunidade no meu ambiente cessacionista. Eu procurei por Deus, mas tudo o que encontrei foi uma sufocação do Espírito na minha tradição evangélica, bem como no meu próprio coração. Eis que essa experiência do câncer do meu filho me trouxe de volta aos meus sentidos, que me trouxe de volta a minhas raízes"


Tradução: Heloniel Jazer

sábado, 10 de junho de 2017

AS ESCRITURAS E OS DONS DO ESPÍRITO - Edu Marques






O intuito deste texto não é, de forma alguma, querer refutar autores ou artigos cessacionistas. Porque, até então, conheço as minhas próprias limitações teológicas e sei o quanto muitos deles são tementes e piedosos à Deus. Minha intenção é, apenas, expôr a forma que creio. E isto, em defesa de ter sido acusado falsamente por um grupo de pessoas nas redes sociais, que se julgam ser os detentores da Fé Reformada. Fui tratado como um  neo-pentecostal, que deveria conversar com o capeta”; como um cara-de-pau e mentiroso, que estaria trazendo heresias para dentro da Igreja Presbiteriana do Brasil (IPB). Tal coisa se trata de uma mentira descarada de Satanás, de uma quebra explícita do Nono Mandamento. O que esperar de pessoas que se dizem “cristãs” e tratam os outros assim? O que eu fiz não foi debater com elas nas redes sociais (não me rebaixei a isso), mas sim as perdoar em Nome de Cristo, fazendo valer um mandamento dele contido nas Escrituras:
Eu, porém, vos digo que não resistais ao mau; mas, se qualquer te bater na face direita, oferece-lhe também a outra [...] Amai a vossos inimigos, bendizei os que vos maldizem, fazei bem aos que vos odeiam, e orai pelos que vos maltratam e vos perseguem; para que sejais filhos do vosso Pai que está nos céus”  — Mateus 5:39,44
Quero deixar bem claro que eu sustento as Doutrinas da Graça conhecidas como Calvinismo, e as Escrituras como regra de fé e prática em tudo na minha vida  é dela que sou tomado por convicção de que os dons do Espírito Santo não cessaram de forma alguma. Sou membro da Igreja Presbiteriana do Brasil (IPB), e estou debaixo da sua Constituição e Símbolos de Fé; amo a minha igreja, sou muito grato a ela, e trabalho como Missionário na cidade de Estreito-MA. Onde tenho aprendido a depender de Deus e do seu Evangelho, e visto as bênçãos e as promessas de Deus escritas em sua palavra, na minha vida e na minha família.

Se eu tenho as Escrituras como a infalível e suficiente Palavra de Deus, reconheço a existência de vários textos que, tanto explícita quanto implicitamente, me ensinam a buscar estes dons para edificação da Igreja de Cristo.

Veja  o que Paulo diz a respeito dos dons espirituais:  Acerca dos dons espirituais, não quero, irmãos, que sejais ignorantes (1Co 12.1). Os termos que a Bíblia usa para os dons espirituais descrevem a sua natureza. Dons espirituais”: do grego pneumatikon, derivado de pneuma, isto é, espírito. Esta expressão, se refere às manifestações sobrenaturais concedidas como dons da parte do Espírito Santo, que operam através dos crentes para o bem comum. Paulo assevera que, estes dons nos fortalecem espiritualmente:

“De modo que, tendo diferentes dons, segundo a graça que nos é dada, se é profecia, seja ela segundo a medida da fé”  (Romanos 12:6).
“Mas a manifestação do Espírito é dada a cada um, para o que for útil” (1 Coríntios 12:7).
“Mas o que profetiza fala aos homens, para edificação, exortação e consolação. O que fala em língua desconhecida edifica-se a si mesmo, mas o que profetiza edifica a igreja [...] Se alguém cuida ser profeta, ou espiritual, reconheça que as coisas que vos escrevo são ‘mandamentos do Senhor’” (1 Coríntios 14:3,4,37).
“E ele mesmo deu uns para apóstolos, e outros para profetas, e outros para evangelistas, e outros para pastores e doutores”  (Efésios 4:11).

E Pedro também diz: “Cada um administre aos outros o dom como o recebeu, como bons despenseiros da multiforme graça de Deus” (1 Pedro 4:10).

Ora, se estes são mandamentos escritos e inspirados pelo Espírito Santo, é papel da igreja, e nosso também, crer e obedecer a estes mandamentos. A própria Confissão de Fé de Westminster me ensina a deduzir claramente proposições das Escrituras: “Todo o conselho de Deus concernente a todas as coisas necessárias para a glória dele e para a salvação, fé e vida do homem, ou é expressamente declarado na Escritura ou pode ser lógica e claramente deduzido dela” (I, VI). E sobre os dons espirituais, estes são estabelecidos em proposições claras. Se nem ao menos conseguimos deduzir isto, precisamos rever nossas habilidades em dedução hermenêutica nisto.

Assim, concluo que a Igreja que tem a falta destes dons é uma igreja empobrecida e morta. O que pior pode acontecer com muitas das nossas igrejas nos dias de hoje não é a falta de confessionalidade, mas sim a falta de espiritualidade, da busca pelos dons do Espírito. Subscrever uma confissão de fé, não te faz uma pessoa cheia do Espírito. Um filho do diabo pode muito bem se dizer confessional e até citar textos bíblicos. Como um cessacionista saberá que tal é o caso, se ele não acredita no dom de discernimento dos espíritos e diz que ele cessou? Nas Confissões é dito que elas servem apenas de auxílio para a igreja, e que muitos credos e confissões podem errar, e têm errado (cf. CFW. XXXI.III); elas não são a nossa regra de fé e prática, e sim a Bíblia.

Tudo tem que passar pela “régua” das Escrituras. Toda experiência pessoal precisa  estar de acordo com as Escrituras. Tais Confissões nos ensinam acerca do testemunho interno do Espírito Santo em nossos corações, e mais uma vez cito a CFW:

“Esta certeza não é uma mera persuasão conjectural e provável, fundada numa falsa esperança, mas uma infalível segurança da fé, fundada na divina verdade das promessas de salvação, na evidência interna daquelas graças a que são feitas essas promessas, no testemunho do Espírito de adoção que testifica com os nossos espíritos sermos nós filhos de Deus, no testemunho desse Espírito que é o penhor de nossa herança e por quem somos selados para o dia da redenção” (XIII, II).

“E a minha palavra, e a minha pregação, não consistiram em palavras persuasivas de sabedoria humana, mas em demonstração de Espírito e de poder” (1 Coríntios 2:4). 

“Porque, qual dos homens sabe as coisas do homem, senão o espírito do homem, que nele está? Assim também ninguém sabe as coisas de Deus, senão o Espírito de Deus. Mas nós não recebemos o espírito do mundo, mas o Espírito que provém de Deus, para que pudéssemos conhecer o que nos é dado gratuitamente por Deus” (1 Coríntios 2:11,12).

Então, termino este breve artigo apenas dizendo que, se nós afirmamos ser cristãos e cremos nas Escrituras como sendo a Palavra de Deus, segue-se que é nosso dever crer e obedecer aos mandamentos contidos nela. Faça valer o Sola Scriptura, e não somente o que te interessa. Deus é infinitamente poderoso para, ainda hoje, derramar sobre nós o seu Espírito e conceder seus dons espirituais aos santos da mesma maneira como fez no passado. O cessacionismo é totalmente incoerente com as Escrituras e com Deus. E mesmo se o cessacionismo estivesse correto, para fins de argumentação, eu ainda poderia, pela fé, anular toda cessação que a doutrina alega defender. A base da doutrina cessacionista é irrelevante, constituída de falácias de arbitrariedade e suposições indutivas. Ou seja, é uma doutrina extra-bíblica.

Cito mais uma vez a CFW: “A regra infalível de interpretação da Escritura é a mesma Escritura; portanto, quando houver questão sobre o verdadeiro e pleno sentido de qualquer texto da Escritura (sentido que não é múltiplo, mas único), esse texto pode ser estudado e compreendido por outros textos que falem mais claramente” (I, IX).

Se realmente todos nós buscássemos cumprir isto com sinceridade e singeleza no coração, nunca chegaríamos ao cessacionismo. 

“Jesus Cristo é o mesmo, ontem, e hoje, e eternamente” (Hebreus 13:8).

Que Deus nos conceda sabedoria para fazer valer estas coisas em nossas vidas.

Soli Deo Gloria.

sexta-feira, 9 de junho de 2017

Um Cristão e o Cristão modinha - Edu Marques

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Um Cristão: Eu estou maravilhado, com uma simples leitura nos Evangelhos, eu percebi algo que antes nunca tinha notado. Jesus Cristo nos promete que pela fé nele, podemos alcançar todas as promessas contidas nas Escrituras, e que ele é o mesmo ontem, hoje e eternamente.

Cristão modinha: Cala a sua boca seu herege! As promessas de Deus e inclusive os dons do Espírito só foram manifestas no primeiro século, no período apostólico, você não sabe nada de Bíblia, seu herege pentecostal!

Um Cristão: O que é isso meu irmão? Não precisa agir assim comigo, podemos pensar sobre essa questão diferente, mas somos irmãos, Cristo nos une na cruz.

Cristão modinha: Não, eu não sou seu irmão seu filho do capeta mentiroso, na verdade eu só sou irmão da minha turminha do Facebook que pensa igual a mim, seu herege filho do cão.

Um Cristão: Triste meu irmão ouvir isso de você. Creio que questões secundárias não podem dividir o Corpo de Cristo. E além do mais, Deus nos ensina em sua Palavra a buscar os dons do Espírito e o maior dom é o amor.

Cristão modinha: Seu filho do inferno, eu já falei que não sou seu irmão. E para acabar com a sua reputação de “Cristão piedoso” vou marcar a minha turminha aqui pra acabar e humilhar você. Como disse, você deve ter tido alguma conversa com o cão, seu herege carismático pentecostal. Buscar os dons nesse momento da história é incoerente, mesmo eu não tendo argumento lógico dedutivo algum, e além do mais Vincent Cheung não existe seu vagabundinho hahahaha. Olha lá galera, um continuísta kkkkkkkkk, cessou seu idiota(CFW 1:1).

Galera da Turminha:

"SamantaReformada": kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk.

"Paulinho Spurgeon": Que herege kkkkk, que idiota kkkkkkkk, Cheung não existe, e ele crê na Teologia da Prosperidade seu verme, Vincent Cheung é o fake do Sabino hahahahahaha.
Cristão modinha: Vou escrever um textão no meu blog pra REFUTAR você seu herege filho do cão, vou apelar para todas autoridades e os meus teólogos favoritos.



Um Cristão: Puxa que pena! Isso na verdade me entristece muito, eu pensei que vocês fossem cristão genuínos.


sexta-feira, 19 de maio de 2017

Panorama Bíblico - Livros Poéticos: SALMOS - Marcos Júnior

SALMOS



Título do livro

O livro em hebraico se chama seper tehilim, isto é, livro dos louvores (תְּהִלִּים סֵפֶר). Esse título é derivado da palavra hebraica que é comumente traduzida por Aleluia (תְּהִלִּים). Quando os judeus alexandrinos traduziram o Antigo Testamento, optaram por usar o termo Psalmoz, cujo significado é “tanger”, “cânticos piedosos”. Daí tem-se dito que o termo Salmo quer dizer oração cantada e acompanhada com instrumentos musicais (nem todos acreditam assim, antes, defendem o uso da voz da congregação conforme Hebreus assinala). Este termo grego é usado dos Salmos em Lucas 20:42; 24:44 e Atos 1:20. É o livro mais citado no Novo Testamento.

A opus Magnum de Charles Spurgeon foi um comentário deste livro intitulado tesouros de Davi. Ao finalizar tal obra, Spurgeon comentou:

“Mística tristeza pesa em meu espírito ao completar o 'Tesouro de Davi' visto que jamais encontrarei na terra repertório mais rico, embora tenha aberto para mim todo o palácio da Revelação. Abençoados têm sido os dias dispendidos em meditar, prantear, esperar, crer e exultar com Davi. Posso esperar usufruir dias mais alegres aquém da porta dourada? O livro dos Salmos nos instruiu, tanto no uso das asas como no uso das palavras. ele nos prepara tanto para voar como para cantar”.

Autoria do livro

O livro dos Salmos é uma coletânea de, pelo menos, seis autores. 

Os títulos dos salmos creditam a Davi 73 deles e o Novo Testamento confirma dois de sua autoria (Sl 2; At. 4:25; Sl 95; Hb. 4:7). Asafe foi autor de, pelo menos, 12 deles (Sl 50, 73-83). Os filhos de Corá escreveram pelo menos 11 deles (Sl. 42; 44-49; 84; 85-87;88). Salomão escreveu 2 deles (Sl. 72 e 127). Etã escreveu o Sl. 89. Moisés escreveu o Sl 90-91.  Melquisedeque escreveu o Sl 110. Adão escreveu o Sl 139, segundo a tradição judaica. Jedutum escreveu o Sl 39, 62,77. Jeremias escreveu o Sl 112; Ezequiel o Sl 126. Ageu e Zacarias escreveram os Sl 137, 146-149 conforme tradição encontrada na versão dos Setenta (Septuaginta – LXX).

Perspectivas históricas sobre a interpretação dos salmos[1]

Desde cedo na tradição judaica via-se a interpretação escatológica-messiânica. A fraqueza dessa interpretação reside no fato de que nos salmos falta a ausência da terminologia “naquele dia” ou algo semelhante tão comum nos escritos proféticos de Israel.

No século 19, se impôs a interpretação histórica. Uma tentativa de interpretar os salmos a partir da suposta época do surgimento. A fraqueza desse argumento é que dificilmente o salmo se dará a conhecer no local histórico específico, pois usa como vimos muitas vezes a linguagem figurada. De tal forma que um salmo pode ser usado para expressar certo sentimento em várias gerações.

Outros pensadores desenvolveram o que é chamado de interpretação histórica-cultual. Essa visão compreende os salmos como a hinódia do culto. Partindo de uma prerrogativa como essa juntamente com o nome do livro em grego, alguns tem defendido a Salmodia Exclusiva.

A interpretação estilístico-literária busca ver em cada salmo uma obra de arte singular, uma unidade em termos lingüístico-estruturais. Ou seja, o que tem mais valor no salmo é a linguagem e a estrutura.

A interpretação na perspectiva da história da tradição mostra bons resultados em relação ao Pentateuco, ao explicar o texto a partir de sua formação gradativa no decorrer da história.

CINCO LIVROS EM UM[2]

Até o aparecimento da versão Revista e Atualizada da SBB, o estudante brasileiro ignorava, de modo geral, o fato de que o livro dos Salmos é, de fato, uma coleção de cinco livros. Conforme pode ser verificado, esses livros são os seguintes:

Livros
Salmos contidos
Livro I:
Salmos 1–41
Livro II:
Salmos 42–72
Livro III:
Salmos 73–89
Livro IV:
Salmos 90–106
Livro V:
Salmos 107–150

Cada um desses livros se encerra com uma doxologia, sendo que no caso do quinto livro todo um salmo (150) cumpre essa função, formando um grand finale para toda a coleção.

Essa divisão certamente já existia antes da formação da Septuaginta (c. 200 a.C.), pois esta já contém as doxologias ao final dos quatro primeiros livros.

A tradução judia explica o formato do livro como um eco consciente do Pentateuco. Literatura judia do período talmúdico (entre 200 e 500 d.C.) afirma que “assim como Moisés deu a Israel os cinco livros da Lei, assim Davi deu cinco livros de salmos a Israel”.  Mais recentemente, o hebraísta Delitzsch disse: “O Saltério é também um pentateuco, o eco do Pentateuco mosaico, saído do coração de Israel. São os cinco livros que brotam da congregação para o Senhor, assim como a lei compreende os cinco livros oriundos do Senhor para a congregação”. O primeiro grupo, relacionado a Gênesis, tem muito a dizer sobre o homem. O segundo grupo, correspondente a Êxodo, tem muito a dizer sobre a libertação. O terceiro, relativo a Levítico, encontra,  nos salmos de Asafe, o destaque ao santuário. O quarto grupo, associado a Números e começando com o salmo 90, a oração de Moisés, ressalta a época em que a inquietação e a peregrinação hão de cessar no reino vindouro, quando as nações se inclinarão perante o Rei de Deus. O quinto grupo, correspondente a Deuteronômio, contém muita ação de graça pela fidelidade de Deus e salienta muito a palavra do Senhor, como, por exemplo, no mais longo dos salmos, que tem por tema a Palavra escrita do Senhor [3].

O Pentateuco de Israel para Deus
Livro
Autor
Correspondência
Livro 1
Davi
Gênesis
Livro 2
Davi
Êxodo
Livro 3
Asafe
Levítico
Livro 4
Anônimo
Números
Livro 5
Davi/Anônimo
Deuteronômio

TERMOS TÉCNICOS PARA DESIGNAR TIPOS DE SALMOS[4]

• Salmo

No hebraico מִזְמוֹר (mizmôr), ou seja, canção acompanhada pelo tangimento das cordas de um instrumento. 57 salmos têm esta designação. Psalmoz é uma palavra grega e não hebraica.

 • Cântico

No hebraico שִׁיר (šîr), ou seja, cântico ou canção. 12 salmos apresentam este título.

• Masquil

No hebraico מַשְׂכִּיל (masîl). A SBB traduz por “salmo didático”, mas a idéia mais provável é a de “poema para meditação”. 13 salmos são assim designados.

• Hino

No hebraico מִכְתָּם (mitām). o significado deste termo é incerto. De uma possível raiz hebraica que poderia significar “de ouro” ou “precioso”; de uma raiz acádia que poderia significar“escondido” ou “não publicado”; de uma raiz árabe que poderia significar “unção” ou “perdoar”. A tradução da SBB como “hino” é mera conjectura. O termo é encontrado no título de seis salmos.

•  Oração

No hebraico תְּפִלָּה (tep̄illâ). Encontrado em cinco salmos. É usado para descrever os salmos de Davi nos livros I & II (cf. Salmo 72:20). É também encontrado no sobrescrito de Sl 17, 86, 90, 102, 142 .

•  Louvor

No hebraico תְּהִלָּה (tehillâ). Usado no Salmo 145.

CLASSIFICAÇÃO DOS SALMOS[5]

Categoria
Quantidade de Salmos


Hinos de louvor
Trinta e Um (31)
Lamentos individuais
Cinquenta e cinco (55)
Lamentos coletivos
Vinte e sete (27)
Salmos reais
Dez (10)
Salmos didáticos
Vinte e três (23)

Data

A datação do livro é difícil, pois existem salmos pré-exílicos, exílicos e pós-exílicos. Em termos gerais, os eruditos datam o livro no ano 1.000 A.C. Expressam grandes verdades em estilo poético, calculado para atingir as cordas mais profundas do coração. Deveríamos aprender a lição que nos dão, de que o conhecimento intelectual não é o bastante, o coração também deve ser tocado pela graça redentora de Deus. Jonathan Edwards escreveu um excelentíssimo tratado sobre esse tema chamado “emoções religiosas”.

O livro é extremamente valioso para a Igreja ao longo dos anos, tal como o testemunho do bispo Ambrósio, pastor em Milão:

“Embora toda a Bíblia respire a graça de Deus, O Livro dos Salmos é mais doce que todos os outros. A história instrui, a lei ensina, a profecia anuncia, reprova e castiga e a moral persuade; mas no Livro dos Salmos temos o fruto de todas elas e uma espécie de remédio para a salvação dos homens” [6].

Epígrafes no Saltério[7]

Dos cento e cinquenta salmos apenas trinta e quatro não possui epigrafes.  Cento e cinquenta e dois têm títulos reduzidos. Catorze possui explicação de sua ligação histórica. Outros possuem epígrafes especiais que parecem ser com ligações musicais. Quatro dos títulos expressam o propósito do salmo. Por fim, há os cânticos dos degraus.  Essas epígrafes presentes no saltério são antiquíssimas, uma vez que a tradução grega do A.T. no séc. III aC apenas translitera alguns termos, pois os termos hebraicos se tornaram obscuros com o tempo. O Dr. J. Sidlow Baxter é de opinião que tais epígrafes faziam parte dos autógrafos do A.T. O significado de tais epígrafes é obscuro para nós também. O Dr. E. W. Bullinger disse certa feita: “Nenhum tema de estudo bíblico parece ser mais incapaz de solução”. O grande hebraísta Franz Delitzsch afirmou a respeito dos chamados “títulos” dos salmos: “A Septuaginta já os encontrou em existência e não os compreendeu. [...] A chave para o seu entendimento deve ter-se perdido muito cedo”. Comparando os salmos com o Salmo encontrando em Habacuque 3 e em Isaías 38:9-20,  a erudição moderna considera que a estrutura das epígrafes seja como segue:

• O sobrescrito
• O cântico ou salmo
• O subscrito

Sendo assim, Isaías 38:9-20 ficaria assim:

1) Sobrescrito – “Cântico de Ezequias, rei de Judá, depois de ter estado doente e se ter restabelecido...” (v.9);
2) O cântico em Si – Presentes nos vs. 10-20;
3) o subscrito: “... pelo que, tangendo os instrumentos de cordas, nós o louvaremos todos os dias de nossa vida na casa do SENHOR”. (v 20b)

O fato de que a LXX tratou todas as epígrafes como título deve-se ao fato de que no texto hebraico antigo não havia separação entre um salmo e outro, daí, os judeus consideraram alguns subscritos como títulos de outros salmos.

SALMOS IMPRECATÓRIOS: UM DESAFIO PARA O SEC. XXI?

Os salmos são apreciados por descrever as emoções que sentimos com maestria. O grande problema que enfrentamos ao ler os salmos que pedem vingança, isto é, os salmos imprecatórios é que nos é ordenado tanto no A.T quanto no N.T. a amar nossos inimigos, orar pelos que nos perseguem, abençoar e não maldizer. O que fazer com salmos assim?

C.S. Lewis escreveu em reflexões sobre os salmos : “Não podemos simplesmente perdoar os salmistas com o argumento que não eram cristãos e não sabiam que eram errado, pois no centro da lei judaica em Lv. 19:17,18 aparece a seguinte instrução ‘não guarde ódio no seu coração... Não se vingue... mas ame os outros como você ama a si mesmo. Se os judeus amaldiçoavam com maior intensidade que os pagãos, isto se deve, penso eu, ao menos em parte, ao fato de encararem  com maior seriedade essa questão do que certo e errado; eles estão irados não apenas porque foram injustiçados, mas porque há coisas que são detestáveis aos olhos de Deus”.[8]

Phillip Yancey declara: “Vejo nas maldições que aparecem nos salmos um importante modelo de como lidar com o mal e a injustiça. Eu não deveria reprimir a minha reação de horror e raiva diante do mal. Tampouco devemos tentar fazer justiça com as próprias mãos.  Ao contrário, devo apresentar essas emoções, com toda a franqueza diante de Deus. O salmistas expressam e dirigem a sua indignação a Deus e não aos inimigos.[9]” 

A Bíblia de Estudo Palavras-chave, editada pela CPAD (p. 596) declara que ‘a natureza da poesia hebraica é particularmente apropriada para expressar sentimentos intensos. Os salmos são profundamente pessoais por explorar todo o campo das emoções humanas’; isto tem a ver com os imprecatórios e o nosso desejo por justiça.

Os salmos imprecatórios são: 35; 58; 59; 69; 83; 109; 137. As passagens mais curtas são: 5:10; 6:10; 28:4; 31:17,18; 40:14,15; 41:10;  55:9,15;  70:2,3;  71:13;  79:6,12; 129:5-8; 140:9,10; 141:10; 149:7-9. A postura encontrada nos salmos imprecatórios é igualmente encontrada no Novo Testamento, como, por exemplo, nas palavras de Paulo: “Alexandre, o latoeiro, causou-me muitos males; o Senhor lhe dará a paga segundo as suas obras” (2Tm 4:14)[10]; portanto, as imprecações não necessitam de severas reprovações.

O princípio hermenêutico da Primeira Menção que diz que a primeira ocorrência do texto esclarece as demais ocorrências é útil aqui também. A primeira menção dos salmos imprecatórios no Sl. 5:10 demonstra contra quem se dirige as imprecações diante de Deus: aos ímpios.  Declara-os culpados, ó Deus; caiam por seus próprios planos. Rejeita-os por causa de suas muitas transgressões, pois se rebelaram contra ti”. Essa imprecação é contra transgressores rebeldes, e é contra eles somente porque são o que são, como vemos na última oração: “... Pois se rebelaram contra ti”. Um exame cuidadoso de todas as passagens imprecatórias mostra que dois terços delas são especificamente contra malfeitores como tais; nas restantes, o mesmo motivo parece estar implícito. Embora estejamos longe de afirmar que esse fato por si só esclarece as passagens imprecatórias, destacamos seu valor ao pelo menos esclarecer sua motivação.
Um outro fato acerca dessas passagens imprecatórias a ser cuidadosamente ressaltado relaciona-se ao espírito em que foram escritas. Podemos perguntar: “Por que o salmista não mostrou um espírito bondoso para com aqueles que o maltratavam?”. A resposta é que elejá fizera isso, e dele fizeram mal uso. Aqui e ali nos salmos imprecatórios encontramos palavras como: “Pagam-me o mal pelo bem...” (35:12); “... tenho de restituir o que não furtei” (69:4); e “Pagaram-me o bem com o mal, o amor, com ódio” (109:5), salientando que as imprecações não contrariam o espírito do Novo Testamento, antes estabelece ainda mais a unidade entre Testamentos.

Os salmos imprecatórios tem caráter profético. O salmo 137 roga pela queda da Babilônia que aqui representa todos os inimigos de Deus; se abrirmos a Bíblia em Apocalipse 18:2,6 veremos o eco do salmo quando se lê: “caiu, caiu a grande Babilônia, Dai-lhe em retribuição como também ela retribuiu, pagai-lhe em dobro segundo as suas obras...”.

Em resumo: os salmos imprecatórios são bem fundados no motivo, no ponto de vista e no espírito. Expressam um senso moral inerente à natureza humana e não um desejo pessoal de vingança. O elemento profético sobrenatural neles presente sela-os como genuinamente inspirados. Existem também passagens perfeitamente equivalentes no Novo Testamento. Deduzimos, portanto, que as objeções a esses salmos nascem de suscetibilidades sentimentais da natureza humana, e não de raciocínio lógico. Mas toda vez que o sentimento discorda da lógica bem fundada, é errado e deve ser firmemente reprimido[11].

CRISTO NOS SALMOS[12]

Os textos de Cunrã, nos dias antes de Jesus, mostram que a tradição judaica já reconhecia nos Salmos um elemento profético. Esse elemento profético fala do Cristo de Deus: Jesus de Nazaré. Em Lc. 24:44, o próprio Senhor vê elementos que falam dele nos salmos. Em At. 2, Pedro cita palavras dos salmos como referindo-se ao Cristo.  Outros exemplos podem ser dados:

• Alguns salmos apresentam a figura de um rei, sacerdote e juiz que nunca se concretizou em nenhum dos reis de Israel (Sl. 2; 89; 110), os cristãos viram nelas menções à Jesus;

• O Salmo 22 é citado por Marcos (Mc 15:24), por João (Jo. 20:25) e o Salmo 69 é citado por Mateus (Mt. 27:34,38) como sendo cumpridos em Cristo Jesus;

•O salmo 2:7 é citado no batismo de Jesus (Mt.3:17), sua transfiguração (Mt. 17:5) e sua ressurreição (At. 13:33); O salmo 8:6 é aplicado à Jesus em Hebreus 2:6-10; O Salmo 16:10 é citado em Atos 2:27; 13:35; O Salmo 40:7-8 é citado em Hebreus 10:7; O salmo 110:4 é citado em Hebreus 7:17; O Salmo 118:22 é citado em Mt. 21:42 e outras passagens e o salmo 118:26 em Mt 21:9.







[1] SCHMIDT WERNER H. INTRODUÇÃO AO ANTIGO TESTAMENTO, 3ª EDIÇÃO, SÃO LEOPOLDO, RS, SINODAL, 2004, p. 288-289 adaptado.

[2] PINTO, Carlos Osvaldo Cardoso, Foco e desenvolvimento no Antigo Testamento / Carlos Osvaldo Cardoso Pinto – São Paulo : Hagnos, 2008, p. 321, adaptado.

[3] BAXTER Sidlow J, Examinai as Escrituras - Jó a Lamentações, trad. Neyd Siqueira, Ed. rev., São Paulo, Vida Nova, 1993, p. 95.

[4] PINTO, Carlos Osvaldo Cardoso, Foco e desenvolvimento no Antigo Testamento / Carlos Osvaldo Cardoso Pinto – São Paulo : Hagnos, 2008, p. 321, adaptado.

[5] ELLISEN, Stanley A. Conheça melhor o Antigo Testamento: Um guia com esboços e gráficos explicativos dos primeiros 39 livros da Bíblia; trad. Emma Ander de S. Lima, 2ª Ed. rev. E atual. São Paulo, Ed. Vida, 2007, pp 207-208 adaptado.

[6] APUD BAXTER Sidlow J, Examinai as Escrituras - Jó a Lamentações, trad. Neyd Siqueira, Ed. rev., São Paulo, Vida Nova, 1993, p. 93

[7] Ibid., p. 101ss (adaptado).

[8] APUD ALEXANDER, Pat e David, Manual Bíblico SBB trad. Lailah de Noronha, Barueri, SP, 2 ed. Revisada,  2010, p. 382.

[9] Ibid. (adaptado).

[10] BAXTER Sidlow J, Examinai as Escrituras - Jó a Lamentações, trad. Neyd Siqueira, Ed. rev., São Paulo, Vida Nova, 1993 p. 120-121

[11] BAXTER Sidlow J, Examinai as Escrituras - Jó a Lamentações, trad. Neyd Siqueira, Ed. rev., São Paulo, Vida Nova, 1993 p. 120-127 (adaptado).

[12] ALEXANDER, Pat e David, Manual Bíblico SBB trad. Lailah de Noronha, Barueri, SP, 2 ed. Revisada,  2010, p 388.