sábado, 29 de julho de 2017

O cristão em crise?!


Introdução: Você já ouviu falar ou conhece algo sobre o triunfalismo ou o movimento da palavra da fé? Esse movimento que esteve tão em voga no evangelicalismo televisivo brasileiro declara entre outras coisas que o cristão não permanece doente, pobre ou em crise seja ela qual for. Se isso acontece, é sinal de falta de fé, pecado não confessado, rebeldia contra o ungido do Senhor. Asafe parece ir na contramão desse pensamento aqui. O que Asafe ensina aqui é que não raro um cristão verdadeiro sofre. Sofre fisicamente, emocionalmente, financeiramente. Asafe lida aqui com o que Leibniz cunhou como “teodiceia”. A tentativa de justificar Deus diante do sofrimento humano e aparentes injustiças no Universo. A tentativa de explicar porque o mau atinge pessoas boas. 

Quando Asafe descreve o cristão em crise por causa do mal no mundo, especialmente o bem-estar daqueles que não tem nenhum relacionamento com Deus, ele descreve cinco verdades em relação à ele:

I. Geralmente é alguém que está vacilante em sua fé – v. 2

 O texto na NVI diz assim: “Quanto a mim, os meus pés quase tropeçaram; por pouco não escorreguei”. Os termos tropeçar e escorregar aqui, remetem à uma metáfora de alguém pisando em terreno escorregadio, sem nenhuma firmeza. Fala de uma água derramada levada de um lado por outro.  Asafe não tinha mais convicção da bondade de Deus tão vivamente proclamada na abertura. Asafe não tinha mais convicção da utilidade de servir a Deus (v. 13). 

Parece recorrente em toda a Bíblia essa hesitação. Os cristãos hebreus a quem é dirigida a epístola de Hebreus pareciam estar vacilantes em relação a utilidade de seguir a Jesus Cristo (Hb. 10:19-25). Os cristãos gálatas pareciam estar querendo voltar a sua antiga filosofia de vida (Gl. 4:9).

Esses e outros experimentaram na pele a máxima de Provérbios: “A esperança que se retarda deixa o coração doente, mas o anseio satisfeito é árvore de vida” (Pv. 13:12). Asafe, os hebreus e os gálatas pareciam ter visto sua esperança retardar e quando isso acontece o nosso espírito se abate (Sl. 143:7).

II. Pode desenvolver doença física – v. 14, 26

O texto parece fazer uma antítese entre o corpo de Asafe e o corpo daqueles a quem ele invejava. O verso 5 diz que eles não são atingidos por doenças como outros homens. Aqui no verso 14, usa-se a mesma expressão para dizer que, ao contrário deles, Asafe sim é tocado, isto é, por doenças. O que ele confirmará no verso 26 quando diz “o meu corpo pode fraquejar”. O fraquejar do v. 26 significa “falhar, deixar de desempenhar a função, parar de funcionar corretamente”. 

Ao contrário do que se ensina na Palavra da Fé, a Bíblia demonstra inúmeros casos de pessoas que adoeceram. Paulo, Trófimo, Timóteo, Ezequias, Dorcas. Como a Bíblia apresenta o homem como um todo unificado, as doenças de Asafe se relacionam com o estado de sua alma. O que psicologia moderna chama de ‘doenças psicossomáticas’. Não sabemos se as dores de Asafe surgiram do estado de seu espírito ou o contrário. O fato é que quando Asafe olhava para seu próprio corpo e o contrastava com o corpo daqueles que não se relacionavam com Deus a inveja ressentida aumentava.

III. Vivencia um senso de reprovação divina – v 14b

Asafe continua: “Todas as manhãs sou castigado”. O termo castigado significa também reprovado. O que Asafe está dizendo é que não importa o quanto cumprisse seu dever religioso e moral, ele parecia ser alguém que sempre estava aquém do sorriso e da aceitação de Deus. Asafe não era alguém que não experimentou a justificação pela fé, ao contrário, mesmo experimentando um relacionamento com Deus (v. 23), ele se sentia distante desse Deus. Esse fato só levava a inveja a crescer, pois ao contrário dos ímpios, que eram populares e requisitados (v. 10), Asafe não tinha ninguém a quem se apegar, parecia que ninguém se importava com o salmista. O fato mais curioso para mim nesse caso é quem Asafe era e o que fazia. Era líder de um coral no Tabernáculo, era um profeta de Deus, um homem que certamente, dada sua posição, ouvia muitas pessoas, aconselhando-as e agora, estava só. 

Asafe e Paulo parecem ter tido um momento recorrente assim em suas vidas. Paulo, escrevendo a Timóteo diz: “Você sabe que todos os da província da Ásia me abandonaram” (2Tm. 1:15). “Demas, amando este século me abandonou” (2Tm. 4:10) “Na minha primeira defesa, ninguém apareceu para me apoiar” (2Tm 4:15). 

A história eclesiástica reforça esse sentimento. Disseram para santo Atanásio: “Atanásio, o mundo está contra Ti”, ele respondeu: “Atanásio está contra o mundo”. William Cowper, famoso poeta inglês, sentia que Deus tinha graça para todos, menos para ele.

Se viver a graça é melhor que estar vivo (Sl. 63:3), esse senso de reprovação é pior que a morte. 

IV. Temporariamente possui uma visão limitada da realidade – v. 22

Asafe se reconhece como ‘tolo’. De acordo com o Sl. 92:6, o tolo não entende, não vê. Parece, para usar a linguagem de Pedro, que ele havia esquecida da purificação dos seus antigos pecados, pois isso é a atitude de um homem que experimenta uma cegueira espiritual temporária, e lembre-se, Asafe era um cristão e Pedro estava escrevendo para cristãos (2Pe. 1:8-11).

Asafe reconhece que enquanto estava inflamado pela inveja não conseguia entender (v. 16). Asafe tinha uma visão imediatista na sua crise, pois ele só foi adquirir uma compreensão do fim dos ímpios (fim escatológico) quando tem diante de Si a realidade de Deus (v. 17). 

V.  É alguém que se recusa a desfrutar da graça de Deus – v. 22b

 Comentando a expressão ‘animal irracional’, O DITAT (Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento) diz (p. 293): “(o termo) ocorre cinco vezes em Salmos e Provérbios. Tal pessoa é aquela que se recusa a aceitar a graça de Deus [Sl. 73:22]”. É dificílimo conciliar a graça comum de Deus na vida dos pecadores (Mt. 5:45). É dificílimo aceitar que Deus abençoa com bênçãos materiais (chuva, sol, comida, bebida) aqueles que fazem pouco caso dele e nos deixam passar dificuldades. Isso cria em nosso coração as raízes de amargura que nos separam da graça de Deus (Hb. 12:15). Veja que Asafe estava amargurado (Sl. 73:21). 

Para concluir, querendo enfatizar, a atitude de Deus, que até pode desembocar num estudo posterior, para com o crente em crise. Asafe diz que Deus: Sustenta, dirige e aceita o cristão com sua crise (Sl. 73:23,24). Deus não escorraça, Deus não joga fora (Jo. 6:37). Deus sustenta, dirige e aceita! Soli Deo Glória. 

sábado, 1 de julho de 2017

Doutrina da Reprovação

A DOUTRINA DA REPROVAÇÃO



Dentro do estudo da doutrina da salvação, descobrimos que Deus, livre e soberanamente, elege alguns indivíduos para a salvação. Quando tratamos desse assunto, então, precisamos destacar que ao eleger alguns, Deus reprova outros.

O que vem a ser a reprovação? Segundo a Bíblia de Estudo de Genebra, Nota Teológica, página 1333, Reprovação é o nome dado à eterna decisão de Deus com relação àqueles pecadores que não foram escolhidos para a vida. Não os escolhendo para a vida, Deus determinou que eles não fossem transformados. Eles continuarão em pecado e, finalmente, serão julgados por aquilo que tiverem feito. Em alguns casos, Deus pode ir mais longe e remover as influências restritivas que protegem uma pessoa da desobediência extrema. Esse abandono, chamado de “endurecimento”, é, em si mesmo, uma penalidade do pecado (Rm 9:18; 11:25 conforme Sl 81:12; Rm 1:24,26,28).

Convém notar que ao ‘continuar em pecado’, eles agirão conforme a vontade do seu coração, que é continuamente mau (Gn. 6:5; 8:21) e extremamente corrupto (Jr. 17:10). O coração é, para usar a linguagem dos reformadores, uma fábrica de imagens e ídolos. De tal forma que nos eleitos, manifesta-se a misericórdia e a bondade de Deus e nos réprobos, a sua justiça (Rm. 11:22).

A reprovação é ensinada na Escritura não tanto com a ênfase da eleição. Algumas passagens: Isaías 8:14; Mateus 11:25,26; 21:42-44; Lucas 2:34,35; Romanos 9:13-24 2Coríntios 2:15,16; 1Pedro 2:6-8; Judas 4; Apocalipse 13:8; Provérbios. 16:4.

Wayne Grudem em sua Teologia Sistemática (p. 573-576) diz “A eleição para a salvação é vista como uma causa para regozijo e louvor a Deus, que é digno de louvor e recebe todo o crédito pela nossa salvação (veja Ef 1:3-6; 1Pe 1:1-3). Deus é visto como quem nos escolhe ativamente para salvação, o que Ele faz com amor e prazer. Mas a reprovação é vista como algo que traz tristeza a Deus, não deleite (veja Ez 33:11), e a responsabilidade pela condenação dos pecadores é sempre lançada sobre as pessoas ou anjos que se rebelam, nunca sobre o próprio Deus (veja Jo 3:18-19; 5:40)”. 

O próprio João Calvino disse com respeito à reprovação: “Decreto, certamente, horrível, confesso”. (Calvino, Institutas , 3.23.7); mas deve ser notado que sua palavra latina horribilis não significa “detestável” mas, antes, “pavoroso, que inspira terror”.

Os cânones de Dort (art. 15-18), a Confissão de Westminster (3.7) ensinam também a reprovação. Quando os cristãos falam de tal doutrina, geralmente a nomeiam como “dupla predestinação”. Lutero embora, segundo alguns, tenha enfatizado mais a predestinação que Calvino, não deu tanta atenção à doutrina da reprovação, conforme o Rev. Oswald Bayer na nota de rodapé 150 de seu livro "Teologia de Martim Lutero: Uma atualização".

O Rev. Ronald Hanko em sua Doutrina segundo a Piedade (p. 69-70) explica que a doutrina da reprovação tem, pelo menos, duas funções, que são: Demonstrar sua ira e seu poder nos réprobos e sua misericórdia nos eleitos (Romanos 9:22-23).

O Pr. Antônio Gilberto, na Teologia Sistemática Pentecostal (p. 366) traz um insight poderoso a esse respeito: "“Eleição” e “escolha” são apenas um termo, no original: ecloge. A eleição “olha” para o aspecto passado da nossa salvação (1Pe 1:2; Ef 1:4)". Embora o referido autor, por ser pentecostal, não endosse a doutrina da reprovação.

O Rev. João Ricardo Ferreira de França, ministro presbiteriano e professor no SPN (Seminário Presbiteriano do Norte), escreve em sua Introdução à Teologia Sistemática, oferecida pelo Centro de Estudos Presbiteriano (CEP) diz (p. 29ss): 

"Esta predestinação possui dois aspectos Eleição e Reprovação. Como é isso? Imagine uma moeda de duas faces (cara e coroa) a moeda seria a predestinação e as duas faces duas ações: Eleição e Reprovação.

A dupla predestinação abarca os seres morais criados por Deus a confissão de fé nos declara que existem: 

a) Anjos eleitos (2Timóteo 5:21) 
b) Anjos reprovados (Judas 6) 
c) Homens eleitos (Romanos 9:23; Efésios 1:3-5) 
d) Homens reprovados (Romanos 9:22)

Ele ainda elucida ainda mais o assunto ao escrever: "a manifestação ou a recusa de sua misericórdia tem como alvo a glória de seu soberano poder: Esta é a segunda verdade revelada na seção 7 da Confissão de Fé de Westminster: “como lhe apraz, para a glória do seu soberano poder sobre as suas criaturas” Deus tem todo o poder de realizar o que bem quiser com suas criaturas, pois, ele pode revelar sua a graça a uns e não a outros “Por aquele tempo, exclamou Jesus: Graças te dou, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque ocultaste estas coisas aos sábios e instruídos e as revelaste aos pequeninos. Sim, ó Pai, porque assim foi do teu agrado.” (Mateus 11:25-26)". 

O pastor presbiteriano vai além e nos diz (p. 32): A Reprovação tem como finalidade a condenação dos pecadores: Este é aspecto mais polêmico da doutrina da reprovação. A Confissão reconhece que o segundo propósito da reprovação é manifestar a condenação dos pecadores. Assim declara a Confissão de Fé de Westminster: “foi Deus servido não contemplar e ordená-los para a desonra e ira por causa dos seus pecados.” Deus não contempla os reprovados para serem alvos de sua ação misericordiosa. 

Comentando exegeticamente o texto de Judas 4, ele diz: Vejam aqui temos a tônica da reprovação. Estes homens foram “antecipadamente pronunciados” no grego temos o verbo “προγεγραμμενοι” – progegramenoi – que tem a ideia de algo que foi estabelecido antes que permanece assim e que não poderá ser alterado; eles foram postos para serem condenados – selados antecipadamente para esta condenação!

A Escritura demonstra alguns homens que foram destinados à serem réprobos. Judas 11, cita pelo menos, três deles: Caim, Balaão e Corá. Paulo, em Romanos 9, cita outro: O faraó (controvertido de quem seja) da época do êxodo. Podemos mencionar ainda outro réprobo: Saul (1Sm. 28:16).  Outros reprovados podem ser mencionados:  Himeneu e Fileto (2Tm 2:17), Hofni e Finéias (1Sm 2:25), Elimas (At. 13:8) e Janes e Jambres (2Tm. 3:8)

Baseado na vida destes homens podemos concluir que:

• Usufruir da graça comum não é sinal de eleição de Deus

Caim, ao peregrinar para Node, recebeu de Deus uma marca para protegê-lo da morte. Isso é a graça comum. Jesus, em Mateus 5, nos ensina que o Pai faz sua chuva cair sobre maus e bons e o seu sol se levantar sobre justos e injustos, sobre eleitos e réprobos. Graça comum não é sinal de eleição. A graça comum refreia a extrema depravação humana, mas não salva.

• Usufruir bençãos temporais não é sinônimo de eleição de Deus

Esaú se casou, teve família (Gn. 36:2), foi rico (Gn. 33:8), mas não foi salvo. Diz a Escritura em Romanos 9, que Deus odiou Esaú, isto é, ele tornou-se, ou conforme o grego, foi adaptado para ser um réprobo.

• Frequentar a igreja não é sinônimo de eleição divina

Hofni e Finéias eram filhos do sumo-sacerdote Eli. Descendentes de Arão. Cresceram no tabernáculo, cresceram lidando com o culto solene. Mas o veredito divino sobre eles eram: O SENHOR OS QUERIA MATAR! Corá era líder religioso em Israel e foi reprovado por Deus. Ir à igreja é uma atividade dos eleitos, mas não garante eleição. Claro, a Escritura ordena aos eleitos cultuar (Hb. 10:25) e também ensina que muitos anticristos saíram do meio da igreja (1Jo 2:18,19).

Himeneu e Fileto eram professores na igreja e ensinavam doutrinas espúrias, ao ponto de o apóstolo censurá-los em uma carta pastoral. Aqui, claro, cabe dizer que doutrina correta é necessária. Judas 3, ensina a igreja a lutar por preservar o corpo doutrinário sadio transmitido pelos apóstolos e pelos profetas. Janes e Jambres também foram reprovados apesar de terem cargos eclesiásticos.

• Ter cargo de autoridade não é sinônimo de eleição.

Faraó tinha autoridade sobre o Egito antigo,era o senhor daquelas terras, todavia não era eleito.

Diante da doutrina da reprovação, o apóstolo Pedro, em sua carta (2Pe 1:10) encoraja aos crentes a confirmarem sua eleição. Como, no entanto, fazê-lo?

1.  Para Lutero, a raiz da eleição está no Cristo crucificado e na Palavra externa/Sacramentos

"Se alguém está demasiadamente temeroso de que não é um eleito de Deus, ou se é tentado por causa de sua eleição, deve dar graças por esse temor e ficar contente por ter medo, pois pode saber com toda certeza que Deus não pode mentir, ele que disse: “Sacrifícios agradáveis a Deus são o espírito quebrantado”, isto é, o espírito desesperado. “Coração compungido e contrito não o desprezarás, ó Deus” (Salmo 51:17). Que está atemorizado, isso ele o sabe de experiência própria. Portanto, deve lançar-se resolutamente na veracidade de Deus que faz a promessa: deve esquecer, esquecer mesmo a ameaça de Deus, e então será salvo e eleito.

Quem ainda não tem o espírito purificado não deve entregar-se a esse tipo de meditação, para que não caia no abismo do terror e do desespero. Mas deve, antes, purificar seu coração pela contemplação das feridas de Cristo.

Este é um vinho bastante forte e a mais completa refeição, a comida pesada dos perfeitos, ou seja, teologia no sentido real da palavra, da qual o apóstolo fala em 1Coríntios 2:6: “Expomos sabedoria entre os experimentados”. Eu, porém, sou criança pequena que precisa de leite. Que siga meu exemplo aquele que, juntamente comigo, é criança pequena. Certeza suficiente temos nas feridas de Cristo". (Fonte)

A dogmática cristã publicada pela editora Concórdia (p. 273) diz: Afirmou Lutero: "Não devemos, como o fazem os sectários, imaginar que Deus nos conforte imediatamente, sem sua palavra. O conforto não nos vem sem a Palavra, que o Espírito Santo efetivamente traz à memória e acende em nossos corações, ainda que não tenha sido ouvida por dez anos."

Quando acossado por tentações, Lutero repetia a si mesmo: "Sou batizado". Para Lutero, Batismo é um rito para a vida toda. Para ele, toda vida cristã é um contínuo batismo; a razão disto é que para Lutero toda a vida cristã é um batismo diário.

2. Para João Calvino, a certeza da eleição, vem por meio da convicção do amor paterno de Deus mediante a Palavra externa

Nas Institutas da Religião Cristã (3.12.2), Calvino assevera que, conforme o ensino de Cristo e seus apóstolos, somente a fé dos eleitos é real (Mt. 15:13; Tt. 1:1). Razão pela qual Paulo requeria dos cristãos uma fé não fingida (1Tm 1:5). Um dos sinais da reprovação, segundo Calvino, é a ausência do sentimento paterno de Deus, ele diz: "Assim, por certo tempo vicejou em Saul um afeto piedoso para que amasse a Deus, de quem, reconhecendo ser tratado paternalmente, era tomado de algum dulçor de sua bondade. MAS, UMA VEZ QUE NOS RÉPROBOS NÃO SE ARRAIGA PROFUNDAMENTE A CONVICÇÃO DO PATERNO AMOR DE DEUS, NÃO O AMAM PLENAMENTE COMO FILHOS; PELO CONTRÁRIO, SÃO CONDUZIDOS POR CERTA DISPOSIÇÃO MERCENÁRIA. Ora, só a Cristo foi dado esse Espírito de amor, com esta condição: que o instile em seus membros; na verdade esta afirmação de Paulo não se estende para além dos eleitos: “Porquanto o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado” [Rm 5:5]; isto é, esse amor que gera aquela confiança de invocação que abordei acima [Gl 4:6]".

Aplicações 

1. Que Possamos, pela graça e ajuda de Deus, Pai, Filho, Espírito Santo, nos expormos e sermos expostos aos meios de graça (Palavra e Sacramentos) com fé, por eles não são ex opere operato. São, todavia, o meio que Deus institui para dar-nos o seu Espírito ainda que não exclusivamente.

2. Que a afirmação da Igreja possa ser, 'a todos quantos o receberam, deu-lhes o direito de se tornarem filhos de Deus, a saber aos que crêem no seu Nome" (Jo. 1:12). Não sejamos ecumênicos dizendo "Todos são filhos de Deus". Não, a Igreja é a comunidade dos filhos adotivos de Deus. Somos, como Paulo diz: "Família de Deus" (Ef. 2:19).

3. Spurgeon, ministro batista reformado do séc. 19, dizia que aquele que tivesse disposição de aproximar-se do Senhor desejoso de salvação era eleito. Deus dá a fé salvífica, ele é o autor da fé (Hb. 12:2), se, portanto, temos o desejo de aproximarmos do Senhor para recebermos dEle a fé, somos levados a crer na nossa eleição (At. 13:48).

Que Deus nos ajude! Que Deus nos faça guardados em Jesus pelo seu poder (Jd. 24; 1Pe. 1:5)

  Para a glória do Seu Nome.